Sexta-feira, Setembro 25, 2009

o ceará e mineirinho

relendo as piadas guardadas, encontrei estas:

Terremoto no Ceará
Depois dos terremotos ocorridos na Ásia, o Governo Brasileiro resolveu instalar um sistema de medição e controle de abalos sísmicos, que cobre todo o país.
O então recém-criado Centro Sísmico Nacional, poucos dias após entrar em funcionamento, já detectou que haveria um grande terremoto no Nordeste do país.
Assim, enviou um telegrama à delegacia de polícia de Icó, uma cidadezinha no interior do Estado do Ceará.
Dizia a mensagem:
"Urgente. Possível movimento sísmico na zona. Muito perigoso. Richter 7.
Epicentro a 3km da cidade. Tomem medidas e informem resultados com
urgência."
Somente uma semana depois, o Centro Sísmico recebeu um telegrama que dizia:
"Aqui é da Polícia de Icó. Movimento sísmico totalmente desarticulado.
Richter tentou se evadir, mas foi abatido a tiros. Desativamos as zonas.
Todas as putas estão presas. Epicentro, Epifânio , Epicleison e os outros cinco irmãos estão detidos. Não respondemos antes porque houve um terremoto da porra aqui."

Êita nóis!!!
O mineirin estava de férias no RJ, quando viu o vídeo da Daniela Cicarelli.
Na praia, engatou uma americana, levando-a para a água para saciar os
instintos: uma transa molhada.
Ele era competente no que fazia, deixando a americana cada vez mais
endoidecida.
Até que ela não se aguentou e gritou:
- ONCE MORE, ONCE MORE !
E o mineirin:
- BELZONTE ! BELZONTE !

Quarta-feira, Abril 01, 2009

Saideira...

Antes de abandonar o primeiro mundo pra cair de cara na deliciosa bagunça chamada Brasil ai vai um post:
Assim que se fazem obras na Austria. Para os ilustres cidadãos não sujarem os pezinhos, encarpetaram as calçadas do Graben (rua central no primeiro distrito) Só faltou o tapete ser vermelho...

foto: Claudia Machado-Handsur

Quarta-feira, Março 25, 2009

Cap.33_ Berenice e a insustentável simplicidade do ser

A vida é muito simples. Algumas pessoas sabem disso e vivem nesta certeza que tudo explica, tudo salva, tudo suporta. Berenice veio parar na minha porta, ou melhor dentro da minha casa, das minhas gavetas, nas entranhas do meu vaso sanitário. Berenice quando surgiu pela primeira vez no sagão do prédio já trazia tua cara marcada, triste, cansada do destino, da pobreza baiana, da filha grávida com 12 anos, dos filhos criados sozinhos. Já sabia bem quanto custava não ter dinheiro pra cuidar dos dentes e quanto custava ter dinheiro pra por azulejos na cozinha (O pedreiro é cumpadi meu, cobro só 200 reais!"). Nada novo pra minha vida de classe média brasileira mas confesso que já tinha me esquecido deste tipo de pobreza material, tão diferente da pobreza mental a qual me acostumei nesta terra de elevado produto nacional bruto. Durante toda a minha infância e juventude entraram e sairam Berenices na minha vida, de algumas guardo só a lembrança do bolo da tarde, de outra que roubou um colar da mamãe, de outra que sumiu sem dizer nada nem levar nada. mas de muitas sabia muita coisa, talvez até demais. Gostava de ouvir escondido os telefonemas para os namorados e ouvir as histórias que elas contavam, personagens assombrosos que no meu mundo eram só mitos mas no delas era vida real. Outras ouviam radio alto e lavavam a louça sambando, verdadeiras cabrochas. Uma delas fez questão de me ensinar a sambar: "Joga as cadeira, patroinha, solta as pernas, a bunda, a bunda num pó esquecer!" Animada, ela jogava as mãos pra cima e a aguada mistura de detergente minerva escorria-lhe pelos braços: "Olha só, olha só!" e chegava com a bunda até o chão e voltava. Estas não faltavam aos ensaios das escolas e economizavam tudo pra fantasia de carnaval. Ainda outras iam sempre á Igreja e acreditavam em Deus acima, abaixo e do lado de tudo e todas as coisas! Estupro, Abandono, Fome, Violência. Um outro mundo dentro do meu mundo de escola particular, borracha com cheiro de tutifrutti, calça fiorucci e férias em Búzios.
Berenice chegou de cabeça baixa e quando levantou o olhar pra mim, me veio na cabeça ironicamente a cena de gabriela: Sônia Braga toda descabelada e empoeirada antes de virar cravo e canela. Mas Berenice não se faz de coitada nem escolheu tuas rugas tristes no rosto, por ela, ser já basta e ser simples já é o máximo que se espera da vida. Só que Berenice não sabe bem o que acontece. Só agora descobriu que veio pra Àustria e não para a Austrália, que não precisa tomar um trem para visitar a Europa que ela achava que era aqui pertinho. Só que Berenice está feliz, não precisa mais acordar ás 5 da manhã e pegar 3 ônibus pra fazer faxina, cuidar de filhos, netos, da casa dela e dos outros. Berenice ganha por hora, é bem tratada e só me irrita quando me chama de senhora. Berenice errou o caminho de casa apesar de eu ter lhe escrito e explicado tudo, papel com letras grandes de forma, burra sou eu que demorei pra sacar a vergonha dela. Fazia listas de tarefas e escrevia os caminhos em vão. Pois Berenice não teve tempo nem dinheiro pra aprender, Berenice não sabe ler. Mas limpa como ninguém. Furacão Berenice. E dentro de toda esta vida dura, ou justamente pra suportar tanta dureza, Berenice é simples. É tão simples e o quão de ãos que eu já havia me esquecido que a vida é simples, que é possível ser simples, que bom é poder ser simples. Melhor ainda é ser simples como Berenice, por definição, por imposição e ditadura por que nem se passa pelo processo de decidir, escolher, ponderar, não! Ser simples por ser tão necessário quanto apenas ser. E entre uma camisa e outra passada ("quando descobri ela já tarra gravida de seis meses"), uma esfregada no chão (onti eu vi neve e comi!), uma cabeça dentro do fogão (vixi, tá muito sujo, xé!) ela me revela as verdades de ser simples. "...Era ladrão, virou pregoeiro...levou vários tiros, ele não tem bacia, estes ossos daqui, dona – e bota as mãos na cintura enquanto arreganha os olhos pra mim – ele tem não, e anda, o cabra!"
E eu descrente, tentando encontrar uma resposta com meus parcos conhecimentos de medicina e fisica, indago em voz alta: "Mas anda como? Sem bacia?" Ela que neste meio tempo já tinha sumido dentro do fogão, retira a cabeça pra fora e diz com o sorriso dos inocentes: "Deus!"
A simplicidade é tanta que fico perplexa. Berenice percebe:
"Deus faz ele andar! E tenta explicar a própria simplicidade: "Eu vi, senhora, eu vi e chorei e todo mundo chorou lá na igreja, ele tem até um dvd, ele dá palestras, Deus curou ele e faz ele andar, eu acredito... – ela me observa enquanto fala tentando "ler" o que estou pensando. Olhos atentos de jabuticaba, resolve checar o terreno: – "A senhora acredita em Deus?"
Pensei em falar que não acredito. Que acredito numa energia, como algo cósmico que nos guia, como força, como algo necessário pra mim por ser inexplicável mas não neste Deus de Pregoeiros e DVDs, de igreja católica e padres sem excrúpulos. Como o acaso que faz salvar alguém de um perigo e não o outro que está do lado... e mil coisas...astrologia, tantra, Buda, carmas, a força do pensamento, Reiki e I ching e... Berenice esperava a resposta, séria, meio desconfiada, concentrada no meu rosto, um tanto ansiosa e um tanto aflita como se eu tivesse o poder de lançar um tsunami na crença dela. Eu percebi seu temor, abaixei meu olhar em direção ao dela e disse simples como eu um dia fora, feliz de saber que ainda consigo ser:
"Eu acredito"
E ela soltou um "Aaahhh" sorridente e aliviada, voltou a sumir pra dentro do fogão.

Quarta-feira, Março 18, 2009

Português "easy"

Português é muito fácil. Sabendo inglês e sendo criativo, você aprende rapidinho...
Um chefe de cozinha norte americano, morando há pouquíssimo tempo no Brasil, e falando 'BEM' o português, faz a sua lista de compras e vai ao supermercado para tentar abastecer a sua despensa e geladeira. Tendo feito a lista, a seu modo, e com o carrinho na frente, vai lembrando do que precisa:

MAC CARON
PAY SHE
MY ONE EASY
PAUL ME TOO
ALL FACE
CAR NEED BOY (MAIL KILO) (esta é genial...)
AS PAR GOES
KEY JOE (PARM ZOOM)
COW VIEW FLOOR (fantástica)
PIER MEN TOM
BETTER HAB
LEE MOON
BEER IN GEL
THREE GO
PAY TO THE PIER YOU (sensacional...)

Ao final ainda dá um tapa na testa,dizendo:
PUTZ GRILL LOW !
IS KEY SEE O TOO MUCH... PUT A KEEP ARE YOU!!

Bay jus!!! Li

Domingo, Março 15, 2009

xixi no ralo!

uma barraca, um ralo de rua e o carnaval, no centro do Rio.
Xixi no ralo! 50 centavos. genial!

detalhe: olha o tamanho da "fila"
foto: paulocassiano.wordpress.com

Sábado, Fevereiro 14, 2009

Cap.32_dois tipos iguais de pessoas diferentes

no brasil, existem dois tipos de pessoas: aquelas que adoram carnaval e aquelas que odeiam carnaval. e como a folia é a festa maior, mais esperada e mais desejada na terra do samba, quem odeia tem que fugir. fugir pra bem longe, de preferencia para o exterior, para a europa, por exemplo pra austria, mais especificamente pra viena. te garanto que é terreno seguro, é carta branca. por que no brasil se você odeia carnaval, você tem que fugir, aqui na austria se você adora carnaval você tem que procurar por ele desesperadamente e a possibilidade de encontrar é tanto quanto a agulha no palheiro. o carnaval aqui se chama fasching e nada tem a ver com o que voce já viu. nao acredita? aqui o ponto alto da folia é o baile da ópera aonde só vão milionários e famosos e além de fecharem os contratos mais importantes de negocios entre uma champagne e outra, dancam valsa a noite inteira. o resto do povao, gruda na tv pra assistir ao "desfile" de longos e smoking. na carinthia tem o famoso villachfasching onde um mané passa a maior parte da "folia" contando piadas politicas no palco. fora isso nem rastro de mulheres nuas, tambor, bumbo, cuica, bebedeira, gritaria, putaria. a vida corre normal. dai no primeiro ano, voce que odeia carnaval, adora, deita e rola e acha viena o verdadeiro paraiso. no segundo ano, chama todos os teus amigos anti-folia pra te visitar nesta época. no terceiro, quarto já se acostumou com o frio, o silencio, a a cara fechada (de sempre) da galera. lá pelo quinto, sexto ano, quando vai chegando a epoca, voce comeca a ter aquela sensacao estranha de um certo vazio e nao sabe bem o que é. de repente se dá conta que já está há duas horas devorando o site do globocarnaval e se deliciando lendo sobre a luma e sua calcinha. um amigo austriaco, liga todo animado querendo te carregar pra uma festa de "karneval" du bresil. você explica pra ele que não é destas coisas, que não é chegado(a) a isto e sai fora. desliga o telefone pensando: imagina você e tua reputação, o que os amigos brasileiros falariam, seria um sarro pra carregar por toda a vida. mas fica curioso(a), imagina como seria a bateria tocada por austriacos e resolve dar uma passadinha pra ver qual é. e chega lá, vê aquela maquete de mulatas desbotadas com fantasias mais desbotadas ainda. dá uma tristeza. mas daí começa o batuque e por mais capenga que seja, te dá um frio na barriga, o pé parece meio esclerosado mexendo assim sem comando. mais um golinho de cerveja (skol que você odiava lá e aqui bebe achando um luxo!). os ombros se soltam e vão pra frente e pra trás, a cintura acompanha, a bunda também quer e chegando nas pernas o pensamento já está concentrado em lembrar o passo: como era mesmo? uma perna vai pra frente e pra trás enquanto a outra... opa! chega um conhecido e cai na gargalhada: " o quê? você por aqui?! você se contrai todo(a) e mente: "só dei uma passadinha pra tomar uma cerva mas já to saindo batido(a), tchau". no ano seguinte você dá uma sondada discreta pra saber se vai ter de novo a tal da festa e vai com vontade, se deixa até levar pelas mulatas com as mesmas fantasias cada vez mais desboatadas, finge não ver que o puxador do samba lê a letra no papelzinho.o cara afinal é gaúcho e especialista em bossa nova. mas tudo ótimo, você tá animadona (ao), acha tudo lindo, morre de rir com a coisa toda tao mambembe e não tá nem aí pra tua reputacao. entre o sétimo e decimo ano de austria voce resolve que o mais importante não é dezembro e sim fevereiro no brasil. vai no sambódromo, se acaba em uns 10 blocos diferentes, encomenda até fantasia, sai na escola de samba, tua mãe quer te levar pro psicólogo ("você nao era assim, o que aconteceu?"). e a coisa vai de ano em ano piorando (ou seria melhorando?) conclusao: depois de 20 anos de austria voce consegue se arrepiar toda(o) com qualquer sambinha na caixa de fósforo, manda e-mail pra galera avisando: "atencao, pessoal, o carnaval é tal dia, tal lugar, espero voces lá, hein". abre uma comunidade na orkut: carnavalescos em viena, funda uma sambaschule (escola de samba), oferece um workshop: "aprende a sambar num final de semana!", organiza um matine pra criancas com concurso de fantasias e por ai vai... você acha piada? tenho exemplos reais que te confirmam este fato. é um fenômeno muito comum e altamente compreensível. por tudo isto, te digo algo sério: se vc quer continuar a ser um antifoliao(ã), não venha para a austria, continue no brasil, continue morando lá, de preferencia no rio, por exemplo em ipanema, mais especificamente ali na praça general osório e te digo mais: na época do carnaval, te aconselho a se afastar no máximo uns 200 metros da tua casa, por que quanto mais você se afastar, mais perigoso...

um outro exemplo vivido com meus próprios olhos foi naquela época dos anos 80, ela veio de brasilia pra sao paulo, não vou citar o nome por discreção, amiga dos paralamas, empresária da plebe rude, intima de renato russo e só andava de preto. era dandie, dark, punk e tudo o mais. nem preciso dizer: antifoliã assumidérrima! foi morar em londres, ela e suas olheiras, trocou a legiao por suede, dinho ouro preto por brett anderson, o madame satã por the fridge e depois de alguns anos de fog, pubs e fish and chips, em pleno julho, olhava desinteressada a parada da portobelo road, passou um grupo da jamaica, depois de cabo verde e de repente foi se aproximando aquele ritmo tão familiar que um dia fora tão onipresente e odiado na vida dela, o ritmo foi chegando, ela abriu um sorriso, as mulatas balançando, ela achou graça, a bateria acompanhando, ela se soltou toda, a galera londrina se sacudindo atrás e pra fechar a ala brasil: um carro alegórico com nada menos que emilinha borba em cima, toda de azul, iemanjá em si, minha amiga pirou, levantou os braços, correu ao encontro dela e gritou pra cima do carro, "emilinha, emilinha, eu adoro você!" e caiu no samba. depois daquele dia ela nunca mais foi a mesma...

recado para o resto da galera brasil: o mesmo fenômeno pode ocorrer com afoxé, forró, xaxado, xote, maracatu e afins...

Sexta-feira, Fevereiro 22, 2008

Cap. 31_ Pretinho básico ao leite de côco.


Eu encostada na parede com meu modelito mais original e extravagante do possível e imaginário. Seguindo o lema: "Sou assim e já mostro logo!". Ao meu lado esquerdo, homens, rapazes, de idade indefinida, cada um com seus respectivos óculos quadrado de aro preto e o velho truque da combinação calça jeans com blazer. Pura falta de personalidade fashion. Ao meu lado direito, a porta. Eu sou a próxima. Frio na barriga. Olho minhas unhas vermelhas com esmaltes descascando. Deixa pra lá, Lina, é moderno! O que alguns anos de análise não fazem... Até pra unha descascada eu encontro um "way-out". Zezinho se orgulharia de mim agora. Será que ele sabe que o apelido dele é este? Pô, mas se ele fosse analista no Rio, com certeza ele colocaria no cartão de visitas dele "Dr. Zezinho" ao invés de "Herr Diplom Psycho blablá Joseph". Pois se até Governador se chama Garotinho...
– Frau Mares? – Ui, sou eu!
– Entre por favor. – a mulher vestida num pretinho básico tamanho 36(!) segura a porta para eu entrar. Mãos se cumprimentam: Grüß Gott, Grüß Gott (= Salve Deus ou algo do tipo!). Sentamos. Ela passa os olhos rapidamente pelos papéis.
– Frau Mares, o que a senhora sabe fazer?
– Ihhh, tanta coisa, por exemplo: Um ensopado de galinha com leite de côco que é uma delícia!
– Mas Frau Mares, nós estamos aqui numa entrevista para o cargo de Designer-Gráfico/a...
– Ué, mas se a senhora quer saber sobre os meus poderes gráficos, tá tudo aí nos papéis.
– Hum, hum, ok! - Ela retorna o olhar um tanto atordoada para os papéis – Quais eram as tuas tarefas no último emprego que esteve.
– Naquela revista semanal? Ah, era fazer meus colegas rirem!  – Ela tira os óculos quadrado (lógico) de aro grosso (óbvio) preto (existe outra cor no mundo?) e me encara.
– Pensei que era diagramadora...– Ironia e irritação na voz.
– Ai, aquele povo todo cinza que consome 2 maços de cigarro por dia, curvados nos monitores... Ui, era uma chatisse! Eu chegava lá e chamava todo mundo de Schatz (tesouro), botava uma bossa-nova básica pra alegrar o ambiente e ia logo falando um bom dia bem alto, distribuindo uns tudo-bem e tudo-bom, daí contava uma piada...
– E quando a senhora começava a trabalhar?
– Minha senhora, escuta aqui, você ainda não percebeu o trabalho que é se vestir, se maquiar, se fazer bonita e bem humorada, sair no frio com um céu cinza escuro te pressionado na cabeça pra levantar o astral de cinco austríacos completamente entediados pela vida e pelo trabalho?
– Mas eu achei que a senhora foi contratada como Diagramadora e não como animadora de repartição!
– Mas eu já te falei que tudo o que eu posso está aí nos papéis. A senhora me chamou pra esta entrevista pra quê? Pra me conhecer pessoalmente, pra conversar, oder? (= ou o quê?) Pois é o que eu estou fazendo, estou te contando a parte agradável da minha experiência de trabalho. Não vá achar que está faltando um parafuso na minha cabeça mas... – Ela me interrompe.
– Parafuso?
– Desculpa, usei uma expressão bem Brasil. Quero dizer, em alemão vocês diriam que ela (eu!) "não tem todas as xícaras no armário"
– Ah, so! (= ah,tá!)
– Pois é, eu falando sinceramente com a senhora, – Coloco todas as pontas dos dedos na cabeça aproveitando a ocasião para ajeitar o penteado "out of bed" – tenho todas as xícaras na minha cuca, digo armário, mas nenhuma é igual á outra, sabe?
– E o que tudo isto tem a ver com... – Ela está pasma, perdida, me olha como estivesse vendo um extra-terrestre.
– Acho que errei na dose... – Penso alto.
– Dosis? Aonde a senhora aprendeu alemão?
– Ah, isto é outro Kropf! (= papo)! Olha, vamos colocar de novo os pontos nos ís...
– Ísch? Ich? (= eu?). Pontos em mim?
– Ihhh, se a gente continuar assim, vai dar pano pra muita manga...
Ela resolveu relaxar e gozar. Se recostou na cadeira recuperando o ar de superior imperadora demonstrando estar se deliciando com a situaçao totalmente surrealista.
– Manga? Adoro manga!
E agora Lina? Ela caiu no meu jogo, perdeu a graça. È hora de voltar ao sério.
– Ou a senhora está interessada em saber que uma bendita foto de abertura era trocada quatro vezes por que a ministra estava se sentindo horroroza com o modelito de operária e resolveu interferir diretamente na minha obra de arte me ligando toda hora?
– Mas...
– Eles jogavam cada pepino pra cima de mim, nem te conto!
– Pepino? Na tua mesa de trabalho?
– Não, não. Quero dizer, eu tinha que descascar os abacaxis, sabe como?
– Ah, então você trabalhava na cozinha...
– Que cozinha? Não, peraí, vou falar em alemão claro: Eles me mandavam tirar as castanhas quentes do fogo? Entendeu?
– Ah, claro!
– Uma vez, por causa de uma palavrinha eu quase perdi o emprego por que o redator-chefe se recusou á encurtar o texto e o meu chefinho diretor de arte me proibiu de espremer as letras? E eu muito puta, rodei a baiana...
– Rodou o quê?
– A baiana, minha senhora! Fiz um "Skandal" como vocês dizem. – Ela olha no relógio nervosa e cai na real.
– Olha, a senhora vai me desculpar mas existem outros candidatos esperando...
– ... Existe lá fora um bando de gente chata e sem-graça esperando pra trabalhar nesta firma entediada com esta revista mais entediada ainda...– Sinceridade é meu forte.
– Não acredito no que estou ouvindo! – Cor facial: lourinha-camarão.
– Por quê não? É verdade! Olhe pra tua cara, pra tua boca sem sorriso. É igual a esta revista que você faz. – A mulher de boca aberta se vira discretamente para o espelho ao lado da mesa. Tenta mudar suas feições enrugadas e enpanquecadas por um semblante mais suave. Não consegue, a raiva e indignação tomam conta da imagem refletida.
– Chega! Meu nariz está cheio!
– A senhora quer um lenço?
– Não, eu quero dizer, falando num "português claro" que eu não aguento mais! Você está me botando no alto da palmeira!
– Palmeira? Aonde? Ah, A senhora está de saco cheio, é isso?
– Saco? Eu? – Ela passa as mãos na barriga inexistente–  E ainda se atreve a me chamar de gorda! Por favor, vá embora. Não tenho tempo a perder e...
– Vou embora sim. – Abro minha bolsa e na maior calma, coloco os papéis de volta– Tem um monte de outros candidatos lá fora, prontos e engravatados com experiência no exterior, com prêmios ganhos... – Fecho a bolsa, levanto ajeitando a saia – e um deles vai ganhar este emprego tedioso nesta revista entediada. – Arrumo a pregadeira no cabelo – Eu não, vou sair por aí, – Jogo as pontas do lenço amarrado no pescoço para trás, requebro os quadris para a esquerda– entrar num café e ligar prum amigo, jogar conversa fora com a garçonete...
– Jogar conversa fora?
– É. Falar linguiça, como vocês costumam dizer.
– Você é louca!
– Eu sei, sou completamente biruta e é disto que você precisa! De gente doida pra mexer com a vida desta empresa. – Dez pontas de dedos ajeitando o "out of bed", olhos entre rímel e sombras cintilantes percorrendo as paredes brancas – Ou todos os empregados que a senhora tem são 100% eficientes e perfeitos?
– Não mas quase...– Interrompo a lourinha–camarão–queimado.
– Rodeada de eficiência e perfeição! De robôs sem alma nem humor, coitada da senhora... Mas te digo uma coisa, já que eu não vou mesmo ganhar este emprego. Este pretinho básico ficaria muito mais bonito se a senhora colocasse uns balangandães coloridos no teu pescoço, um cintão bem grossão de couro trançado...  – A mulher de boca aberta olha para o próprio corpo – Soltava estes cabelos, fazia um corte decente, tirava este permanente horrorozo... – Ela passa as mãos nos cabelos. Os olhos saltando pra fora dos óculos (de aro preto e quadrado, é lógico!) – E quanto á revista, minha querida, sai dessa lama jacaré! 
– Lama? Jacaré?
– È, por quê você está "sentada na tinta", mané! Pegue umas Fonts (letras) diferentes, brinque com dimensões e perspectivas, abuse de cores e sabores, aliás pra tua própria vida, – Ando pela sala sem parar de falar – Pendure uns quadros neste escritório que mais parece um hospital... – Ajeito a bolsa a tiracolo coloco os óculos escuros no rosto – Enfim, vou indo, foi um prazer conhecê-la! – Estendo a mão de unhas-vermelho-descascado por cima da mesa para me despedir.
– Não, não! Espere um pouco – A mulher se levanta bruscamente empurrando a cadeira para trás, ajeita os cabelos, segura com firmeza a mão da candidata e abre um sorriso – Mudei de idéia, o emprego é seu!

Expressões idiomáticas em alemão
Expressões idiomáticas em alemão com tradução em inglês
Expressões idiomáticas em português
Ótimo artigo do "Deutsche Welle" sobre o assunto

Quarta-feira, Janeiro 16, 2008

Cap. 30_ Asanas, Prayanas e Sacanas

Atenção: Qualquer semelhança invertida com a geração passada, não é mera coincidência mas sim plena ironia.

– Huuu, fuuu, huuu, fuuu.
Cheiro de incenso no ar. A mãe serena sentada no meio da sala em posição de Lotus. Inspira fundo e expira o ar em curto espaço de tempo, movendo o abdômen. Ruídos nasais. Fu, fu, fu,fu... Pranayama.
O filho de dezoito anos chega, ajeita as calças, senta-se no chão ao lado dela e espera ela terminar.
– Fu, fu, fu, fu, fuuuuuuuuuu...
– Mãe, eu preciso falar umas coisas pra você...
– O que é meu filho? – Ela abre os olhos. Ele fala tímido, olhando pra baixo.
– Eu decidi que vou estudar Engenharia.
Ela solta um alto ruído nasal.
– FUUUUUUUU? – Perde toda a compostura. Rugas verticais pipocam na testa.
– O quê? Você tá louco? Quer me matar de desgosto? Nós somos uma família de artistas, teu pai é cineastra, teu tio é estilista, tua mãe é escritora, tua avó foi dançarina performática. Daonde você tirou esta idéia?
– Ué, tô afins, mãe, eu gosto. Do cálculo, das coisas exatas, concretas, sabe?
– E chatas, né? Meu filho, por favor, pense bem. Olha, eu vou te levar lá na Universidade de Artes pra te mostrar o monte de coisas que se pode estudar lá...
Ele se levanta e alisa as calças com as mãos. Odeia calça amarrotada. Abre um pouco a janela. Detesta Incensos.
Ásanas. Ela levanta as nádegas para o teto. Mãos e pés no chão. Um "V" de cabeça pra baixo. Inspira. Expira. Huuu, fuuu, huuu, fuuu.
– Mãe, você já me levou milhões de vezes lá. Conheço todos aqueles professores birutas de cabelos esgrenhados, aquelas piruas doidas e seus vestidos cafonas.
Ela leva os braços esticados para trás da cabeça fazendo um arco com o corpo para trás.
– Essa posição eu não conhecia...
– Suryanamaskar. Saudação ao Sol.
– Ah, sei – Ele olha pela janela o céu cinza – Tá precisando mesmo. Quanto tempo demora pra fazer efeito?
– Engraçadinho!
Ela faz uma circunferência com os braços para cima. Huuu, fuuu. Encosta uma palma da mão com a outra na altura do peito. Abre os olhos.
– Meu filho, eu te levei a todas as vernissagens de artes, desfiles de moda, feiras de livros, fiz questão que você brincasse com os filhos dos nossos amigos também artistas...
– Sei, sei... Nunca me deu um Mac Donald pra comer e filme era só Nick Park e os avantgardes chatérrimos da ARTE*. Spielberg era censurado e Disney nem em pensamento...
– É claro! Pra você crescer sendo diferente, criativo... Te botei em colégio alternativo, aula de canto, oficina de pintura... E você resolve ser Engenheiro? Ai, meu Deus, que humilhação!
Ela está em pé. O pé direito com a planta do pé para cima, apoia-se na coxa esquerda. As palmas das mãos juntas acima da cabeça. Equilíbrio! Vrikhásana. Huuu.
– Ô, coroa, poderia ser pior. Economista, Marketeiro, Político, ...
– FUUUU! – Ela desaba da pose. Ele consegue segurá-la antes que aterrize no chão. – Pára, pára! Tô passando mal! – Ela tampa a boca com as mãos. Mais rugas pipocando.
– Imagina só, mãe, quando eu me formar vou poder colocar em todos os documentos e até na porta da minha casa uma plaquinha dourada: "Herr Diplom Ingenieur..." (Senhor Engenheiro diplomado)
– UUUIIIII! Que cafonisse! – As mãos tampam os próprios olhos – Não faça isto. Você quer matar a tua mãe de desgosto? Ai meu Deus, o que eu vou falar pras minhas amigas...
– Pra aquelas descabeladas maconheiras?
– É! E também sensatas, huuu, emancipadas, fuuu, esclarecidas... – De barriga para baixo, ela segura os pés com as mãos fazendo um arco. Dhanurásana.
– Pelo menos a Francisca não vai poder falar nada. Com aquela filha juíza...
– É mesmo, coitada da Francisca. Teve a filha muito nova e sozinha. Não soube criar, deu nisso: Juíza. Huuu.
– Até passou no concurso público pra promotora.
– FUUU? Jura? Que horror! Isso a Francisca nem teve a coragem de me contar...
– Tá vendo, mãezinha, poderia ser muito pior... E tem uma outra coisa que eu também queria falar com você...
Ela está ereta, mãos e cabeça no chão, pés apontando para o teto. Shirshásana. Pouso sobre a cabeça.
– O que é, meu filho?
– Sabe a Lena que veio aqui um dia ...
– Aquela descendente da família aristocrática? Bem caretinha de óculos? Sei. Huuu.
– Pois é, a gente tá namorando...
TUM! As pernas desabam no chão. O pescoço torto – Como assim?
– É, a gente tá até pensando em morar junto...
O corpo todo estatelado, largado no chão. Olhos arregalados.
– Fuuu? Você tá louco? Quer me matar de desgosto? Eu fiz de tudo pra você ser um cara moderno, esclarecido, liberal de esquerda, lutar pelos direitos dos oprimidos e agora você tá pensando em casar com esta...esta... sem graça?
– Eu gosto dela mãe, ela é simples, calma e... previsível, coisa que você não é!
– Obrigada pelo elogio. Pelo menos no humor você puxou à familia. Mas meu filho, – Ela agora mais calma, levanta e segura a mão dele – Teu pai e eu abraçamos árvore na Lagoa junto com Fernando Gabeira, lutamos pela liberação da Cannabis na Áustria, – A outra mão acaricia os cabelos dele – Organizamos Raves em Goa*... Pensa bem, não tem nada a ver ela e a familia dela com a gente...
– E daí? Mas tem tudo a ver comigo!
Ela junta as mãos em oração e levanta os olhos para o teto.
– Ai meu Buda, Hare Krisna, Rajnish e em todos que eu já acreditei nesta vida! Me digam aonde foi que eu errei com este menino?
– Dramática...
– Imagina você com aquela Bieder (Burguesa). Aposto como ela vai querer montar o apê todinho na IKEA*...
– É verdade, ela já até me mostrou umas coisas do catálogo...
– Pois é. Nossa casa foi toda montada com amor e carinho pelos Flohmärktes (Mercado das Pulgas) da Europa...
– Feiras que vendiam montes de entulhos, coisa velha e estragada e eu era obrigado a ir junto. Criança sofre!
– Eu te comprei roupas coloridas quando criança, panelinhas, fogãozinho, boneca...
– E foi ótimo, mãe, aprendi assim a ser um bom pai e a cozinhar. Você mesma adora as minhas panquecas...
Ela deita no chão de barriga para cima. Braços ao longo do corpo, olhos fechados. Shavásana. Repouso. Huuu, fuuu.
– Mas meu filho, eu tava crente que você iria se interessar pelo Conrad, aquele teu amigo bonitão que é dj e grafiteiro...
– Ele é legal mas eu não gosto de homens, mãe, meu negócio é muher!
– Mas como você pode saber se nunca provou? Além do mais, eu estava me preparando pra ter só genros! Meu filho, eu sou uma péssima sogra para as mulheres. Genro é muito melhor, não tem competição, nem fofoca, nem mal-entendidos. O Conrad é um cara tão legal, tão moderno.
Ela levanta e vai em direção ao bar remexendo o pescoço. Dor. Bota uma boa dose de Wisky no copo. Fod@-se Yoga.
– Ele é só um bom amigo, coroa!
"Mil vezes um genro bicha do que uma nora pentelha!" Ela pensa enquanto saboreia o Single Malt.
– Mas você sempre adorou brincar com todos os titios bichas amigos da mamãe...
– Por que eles são engraçados, divertidos, só por isso.
– AAAiiii, AAAiii,
– Que foi mãe? Tá passando mal?
– Tô com uma dor aqui no peito... Ela respira fundo. Huuu, fuuu.
– Quer que eu chame um médico?
– Não, fica frio, senta aqui do meu lado. – Cabeça de filho entre mãos de Mãe. Bafo de Álcool. Ele afasta um pouco o rosto. Maternos músculos faciais em ação. Ela apronta uma feição bem meiga. – Me promete duas coisas? Olha só, em vez de Engenharia, faz Arquitetura, é quase a mesma coisa. Lá na Faculdade de Artes Avançadas que é uma das melhores do mundo, tá? Daí, quem sabe, você já enturmado no meio artístico, toma gosto pela coisa e vira um Designer de interiores ou de produtos ou de qualquer coisa! Mas pelo menos Designer, meu filho. Por favor, não envergonhe a nossa família.
– Huuu. – Agora foi ele que precisou respirar fundo. – Ok, mãe. Vou pensar. E a outra coisa?
– Por favor, me prometa: Dá pelo menos uma chance pro Conrad...
– Fuuu???

*ARTE = Canal de TV artistico
*IKEA = Loja de móveis tipo Tok&Stock
*Goa = Região no sul da India onde muitos jovens europeus passam as férias, famosa por seus Raves.
video

Quarta-feira, Janeiro 09, 2008

Cuidado com o Djalmão...

Esta piada recebi de um amigo gay.
"Na favela, dois homens entram num barraco arrastando um cara pelos braços. Lá dentro, o Djalmão, um negão 2x2, limpa as unhas com um facão.
- Djalmão, o chefe mandou você comer o c* desse cara aí. Isso é pra ele aprender a não se meter a valente com o nosso pessoal!
- Deixa ele aí no canto que eu cuido dele daqui a pouco.
Quando o pessoal sai o rapaz fala pro Djalmão:
- Ô, seu Djalmão... não faz isso comigo não! Se o senhor fizer isso comigo, minha vida vai acabar! Tem piedade pelo amor de Deus, homem santo!!!!
- Cala a boca e não enche o saco! - grita o Djalmão.
Pouco depois, outros dois homens entram arrastando outro cara.
- Essa aí o chefe mandou você cortar as duas mãos e furar os olhos. Ele precisa aprender a não tocar no dinheiro da boca!!
- Deixa ele aí que eu já resolvo. - ordena o Djalmão.
Daí a pouco, chega outro coitado...
- Djalmão, esse o chefe quer que você corte o pinto e a língua. Isso é pra ele aprender a não se meter com mais nenhuma mulher da favela!!!
- Já resolvo isso. Bota ele ali no canto junto com os outros.
Mais alguns minutos entra outro.
- Aê, Djalmão, esse aí é pra você cortar em pedacinhos e mandar para cada pessoa da família dele.
Nisso, o primeiro rapaz resolve se manifestar em voz bem baixinha...
- Seu Djalmão, por obséquio... Com todo o respeito, só pro senhor não se confundir: eu sou o cara do c*, tá?

Moral da História: Conforme a gente vai conhecendo os problemas dos outros, percebemos que o nosso nem é assim... um problema!! hehehe...)"

Quinta-feira, Janeiro 03, 2008

Prato do dia: Powerfrau* à moda austro-brasileira


*Powerfrau= nome dado aqui às mulheres que trabalham fora e tem filhos.

Instruções de como ser mãe de dois garotinhos, esposa, trabalhar fora e não ter empregada.

_ comida e roupa lavada sao as duas coisas mais importantes. todo o resto que precisa ser limpo como por exemplo: mancha de ketchup na parede, pedaço de macarrão no teto podem ser adiados por tempo indeterminado (tipo quando eles sairem de casa pra morarem sozinhos...)

_ tenha uma máquina para lavar roupa e outra pra lavar louça mas não se esqueça de ter um bom marido que coloque as máquinas para funcionar (tirar a louça limpa, guardar, botar a louça suja, tirar a roupa limpa, estender, botar a roupa suja e tudo de novo num ciclo infinito que nunca, nunca, jamais termina)

_ troque todas as luzes da casa por aquelas lãmpadas amarelas bem fraquinhas por que assim você verá bem menos sujeira. seguindo o ditado: o que os olhos não vêem o coração não sente e a mao não limpa! se os outros perguntarem por que você fez isto, diga que é feng-shui, luz energética, o ambiente fica mais aconchegante e etc e tal.

_ aceite a televisão como sua melhor aliada nos métodos modernos e pedagógicos de educação: "se não arrumar os brinquedos antes, não tem kika hoje!" (canal só para crianças). "se bater de novo na mama não tem kika pro uma semana!", "se não vier aqui agora pra escovar os dentes e depois colocar o casaco, cachecol, boina e luvas pra gente sair batido por que já estamos atrasadérrimos, não tem kika por um mês!" use a criatividade, você conseguirá resultados impressionantes com este método, até espinafre comerão!

_ aliás, não existe espinafre, existe "prato do popeye" pra deixar os músculos fortes. "sopa de power-ranger" codinome cenoura, "se não comer, não pode entrar no clube deles!". "esta coisa vermelha aqui (beterraba) o batman come todo dia", "o segredo do homem-aranha é esta porção verde mágica (abobrinha)!"

_ toda a janta não pode demorar mais do que meia hora pra ser servida. então entre para o maravilhoso reino dos semi-prontos: tortelini pronto, semmelknödel congelado, espinafre congelado, sopa maggi e compania

_ pra não perder as raízes e nem o rebolado: cozinhe 1 quilo de feijão e congele em porções pequenas. uma vez por semana ou dependendo do paladar familiar, a cada duas semanas, taca feijão na galera maas não abuse pra não ouvir uma frase que você na tua terra natal nunca ouviria: "ai, não! feijão de novo?"

_ adote o método austríaco de educação e coloque as crianças pra ajudar desde cedo. misturar a massa de panqueca (cuidado pra chupeta não cair lá dentro!), no início de dezembro, fazer biscoitinhos de natal (mas não deixe elas tirarem do forno por um motivo óbvio: não sobrará nenhum para o natal!) limpar o chão do banheiro depois do banho ("socorro! o que aconteceu com a minha blusa nova? "ih, mama, achei que era pano de chão...")

_ para a tua vida sexual não ser prejudicada, adote métodos realmente seguros de contracepção. ou seja, ligação de trompas ou vasectomia. imagina depois de um dia cansadérrimo, quando as crianças finalmente pegam no sono, você tem que ainda procurar a camisinha e descobrir que acabou ou olhar a tabelinha e calcular um "hoje não pode!", jurar que amanha vai marcar a ginecologista que você tá adiando faz meses por que a pilula acabou e você não consegue se acostumar com o fato de morar num país que não dá pra comprar nem analgésico sem receita médica. sinceramente, depois de um dia de power-frau, se você tiver que pensar em algum destes detalhes antes de transar, ou o tesão vai embora, ou ele já pegou no sono...

_ reinvente seu conceito de limpeza. uma roupa está suja por que tem uma mancha de iogurte? nada que uma escovinha com água morna não resolva. uma duas, até umas cinco manchas, a roupa continua limpa, acredite firmemente nesta verdade. a partir da sexta mancha de ketchup, pirulito, manteiga, leite e etc. você começa a pensar na possibilidade de botar na máquina por quê senão haja escovinha e água quente.

_ no inverno, pra economizar a choradeira de não querer entrar  e depois mais uma berração por que não quer sair, dê banho nas crianças dia sim dia não. desta forma você economiza 360 choradeiras por ano!

_ use e abuse da sogra. á distância, é claro. se você tiver a sorte de ter uma que goste dos netos e segura a onda, nada como uma tarde livre. enquanto isso, você terá tempo pra ligar pra tua mãe e chorar tuas mágoas: "mamae, não aguento mais, os filhos, o trabalho, a casa suja, estou tão estressada..."

_ mas como ninguém é de ferro, contrate uma faxineira nem que seja duas vezes ao mês, pra tirar o pó dos móveis, passar aspirador e limpar o banheiro. se é paga por hora, que seja rápida e eficiente e limpe só o que o teu dinheiro puder. (pense duas vezes antes de pedir pra limpar a estante com 500 livros. se ela for cara e lenta, ao invés de limpos, você poderia comprar mais uns dez livros novos...)

_ falar em ferro, aposente o ferro de passar roupa. compre aquelas roupas de cama de malha e colchas para os cobertores que já vem enrugadinhas e não precisam passar. use e abuse dos polyamidas e acrilicos e poliésters da vida (sempre tendo a mão um bom desodorante) por que, raciocine comigo: o modelito que você comprou na C&A ou na H&M custa metade do preço que a passadeira cobra por hora!

_ caia na real: depois de ter filhos, você nunca mais terá tempo de passar 3 horas por dia na academia, portanto: encare todo e qualquer movimento físico diário como seu aliado no combate à gordura. passar aspirador é ótimo pra coluna, abdomen e alonga as pernas (mantendo a postura correta, é claro). empurrar carrinho de criança combate a flacidez e tonifica as pernas. estender as roupas num varal bem alto, alonga a coluna e braços. qual a diferença entre o caminho da escola e a esteira de fitness? nenhum! melhor ainda quando a escola é numa direção e o jardim do caçula é na outra oposta. demora-se 20 minutos andando ás 8 da manhã somando-se com os -4 graus de temperatura ao ar livre, não há celulite que resista! subir escadas ou usar a bicicleta ergométrica? melhor a primeira opção por que você frequentemente ainda terá uns 5 quilos de compras em cada braço pra carregar...

_ caia na real II: aquela depilação era linda mas quando vc terá tempo de ligar, marcar, ir lá e fazer? nada que uma boa gilette não resolva. ou: você acaba de fazer as unhas e tem que limpar o banheiro por que, apesar de ter levantado a tampa, o caçula tem uma mira péssima... falando claramente: o teu tratamento de beleza se reduz a um banho com direito a lavagem de cabelos, peeling no corpo e muitos cremes depois, um verdadeiro spa! (mas não se esqueça de contratar o maridão pra brincar com as crianças senão é de novo uma surpresa: eles escancaram a porta, o frio entra e os dois saem rindo e gritando pela casa: "mama não tem piruzinho! mama tem pombinha! papa vem ver!")

_ festa de aniversário para crianças? adote o método austríaco: convide só as crianças (os pais só aparecem pra levar e buscar), compre a massa da torta pronta e faça só o recheio. assim que todos chegarem, cante parabéns e distribua a torta. invente mil brincadeiras (dança da cadeira, cabra-cega, etc. pra passar o tempo. depois de umas duas horas, sirva salsicha cozida na água com pão semmel e ketchup (nem pense em fazer molho á la barraquinha da praia pois as crianças daqui odeiam e você vai ficar á toa fedendo á alho, cebola...) brigadeiro também nem pensar, eles acham que é munição de canhão e começam a atirar um nos outros. mas mesmo com toda a facilidade, reserve algumas cervejinhas pra você tomar depois de três horas de pura loucura e nem pense em olhar o estado da casa agora...

_ arrume um emprego que você trabalhe três dias direto ao invés de todos os dias um pouquinho. assim pelo menos um dia da semana, enquanto as crianças estão na escola, você terá tempo pra fazer o que toda mulher nesta situação ama, adora, morre de paixão. se você pensou em shopping errou (trabalhando meio expediente tua conta dá a conta certinha pro básico, amor!), ginástica, natação, yoga? tá louca, muito cansativo. trepar? seria maravilhoso mas o maridão tá no batente. meditação, começão, dormir? não, não, não. é simplesmente deitar no sofá, olhar pro teto e não fazer nada, nada, nada.

_ se você tem um blog, se contente em postar uma vez por ano no máximo........

Sábado, Novembro 24, 2007

Bolhas!

Pois é, faz tempo que não escrevo. Sem tempo... procurando emprego... cuidando da cria...
estressada... mas agora tá tudo ótimo, tô calminha..uma amiga maravilhosa me mandou isto:
Quem já fez, sabe que isto tem efeitos milagrosos... Viva as bolhas da vida!
ÔÔÔmmmmmmm.....

Sábado, Setembro 15, 2007

Cap. 29_ A dinastia dos Balangandães

A televisão ficava no centro do armário embutido. À esquerda as saias e calças, à direita blusas e vestidos. Nas portas dos armários, espelho, balangandães de todos os tipos e tamanhos, lenços, maquiagens. Cheiro de sabonete Lux dominando o ambiente.
Ela, de toalha enrolada no corpo, mergulhada no guarda-roupa.
Eu, deitada na cama, mergulhada na TV.
"Abra suas a-sas..." Letras em Neon movem-se frenéticamente. SÔNIA BRAGA.
Ela passava a mão entre as roupas, pensativa.
Eu: Você prometeu comprar isto para mim!– Aponto para a meia de lurex colorida dentro da sandália prateada. Quando ela olha, a imagem já se foi, dando lugar a caras e bocas contornadas por neons coloridos.
"...solte suas fé-é-ras..." ANTÔNIO FAGUNDES
Ela escolhe um vestido de lastex estampado e passa para o outro lado.
– "Ô mãe, cê tá me atrapalhando..."–
"...caia na gandaia-a... " JOANA FOMM
– Já tô acabando, minha filha.– Ela pendura um colar.
"...entre nessa festa..." GLÓRIA PIRES
Ela coloca anéis, pulseira, brincos.
Botas de verniz vermelha berrante dançam em cima de luzes coloridas. Preciso aprender este passo...
"...E leve com você-ê-ê-ê seu sonho mais loooouuco". LAURO CORONA.
Ela passa para o outro lado e puxa um lenço da porta e enrola no pescoço.
Eu me imagino na pista de dança. Como elas conseguem dançar de salto alto?
"...Eu quero ver esse corpo...," PEPITA RODRIGUES.
Ela pendura outro colar.
"...lindo, leve e solto..." LÍDIA BRONDI.
Mais um colar.
"...A gente ás vezes, sente, sofre, dança, sem querer dançar..." REGINALDO FARIAS.
Ela tira um colar e se olha de perfil no espelho.
– Mãe, se eu fizer um permanente meus cabelos ficam assim?– Aponto para a tv, com a outra mão puxo o vestido dela.
Ela balbucia a resposta enquanto passa batom nos lábios.
– Ãaão! Eeu abeelo é lindo arrim!
"...Na nossa festa vale tudo! Pode ser alguém como e-eu, como vocêêêê".
Ela coloca um maço novinho de Shelton na bolsa, vira-se para mim e se debruça na cama querendo um beijo de despedida. Os balangandães encostam no meu rosto cegando meu campo de visão.
– Aonde você vai, mãe? – Afasto os balangandães enquanto procuro os olhos dela.
– Encontrar umas amigas.
– Quero ir também!
– Você é muito pequena e isto não é programa para criança!
– Você mesma me disse outro dia que eu já sou uma moça...
– Minha filha, escuta – Ela senta na beirada da cama e segura meu rosto com as duas mãos. O cheiro de creme Pond's invadindo minhas narinas – Nós vamos fazer fofoca das sogras, falar mal dos maridos, de cirurgia plástica e limpeza de pele, da inflação, dos chefes cafajestes... e... fumar sem parar! Você odeia fumaça de cigarro, eu sei. Então? O que você vai fazer lá?
– Ficar quietinha e ouvir as fofocas todas!
– Não! Além do mais, depois de uma hora você vai ficar com sono e vai me encher o saco pra ir embora. Agora chega de discussão. Assim que acabar a novela, vá escovar os dentes e dormir por quê amanhã tem aula. E saiu, bolsa rente ao corpo, salto agulha, balançando os balangandães.
Cresci e troquei o armário embutido dela pelo dos irmãos mais velhos. A composiçao era a mesma, á direita, roupas de Guido, á esquerda, Miro. mas no centro, ao invés da TV, a eletrola berrava Led Zeppelin, Supertramp, Arrigo Barnabé, Laurie Anderson. Ela passava pelo corredor gritando.
– Meu Deus! Isto nao é música! Abaixa esta porcaria!
Numa bela tarde desses tempos sem compromisso, Guido, meu eterno ídolo, comprou um disco da Tetê Espíndola
e ouvíamos chapadões no quarto. Aqueles agudos eram um bálsamo pros meus ouvidos capengas. Pássaros na garganta.
"Sertaneja se eu pudesse.......Acabava com a tristeza....Por que choras quando eu canto? UUUUAAAA!" Orgasmos em formas de decibéis. Guiada pelos ouvidos, Dona Zilda entrou no quarto em transe, curiosa.
– Quem está cantando?
– Essa aqui. – Guido estendeu a capa do disco. Ela observou com certo desdém a hiponga seminua tomando banho na cachoeira. – Você gosta?
– É muito bonito, que voz linda! – Dona Zilda fechou os olhos. Ouvia a voz, os pássaros da sua infância, as carambolas caindo das árvores, os banhos de rio, os irmãos de barriga inchada, as festas do interior, montar cavalo sem sela... Olhos úmidos. Interrompi sua viagem ao tempo.

– Ela vai cantar hoje á noite lá no teatro Leopoldo Fróes. – Assim que terminei a frase, Guido, que estava de costas para ela, me olhou de testa franzida balancando a cabeça negativamente. Dona Zilda com o rosto iluminado respondeu:
– Eu vou! – Antes que pudessemos dizer qualquer coisa, ela já estava toda cheia dos infinitos balangandães, batom, salto alto, seus inseparáveis cigarros Shelton na bolsa, pronta pra sair.
– Mas mamãe, só vão jovens...
– Ué, e daí? Eu não sou assim tão velha, sou uma coroa pra frentex como você mesma costuma dizer – Guido, puto da vida comigo, tenta argumentar:
– Mamãe, eles fumam muito...
– E daí? Eu também! – Eu querendo esclarecer:
– Mas é outro tipo de cigar......ai! – Beliscão do Guido.
Dona Zilda, uma mulher que nunca saiu dos trilhos: geração anos 50, Getúlio Vargas, ditadura militar, comunista come criancinhas, Fidel Castro é o diabo na terra, as filhas casarão virgens e os filhos serão engenheiro e médico, tudo nos conformes, Dona Zilda tinha uma idéia fixa e formada de como seriam os filhos. A ditadura Geisel reinava fora e dentro de casa. Homosexualismo? Uma doença horrível. Maconheiro é marginal, criminoso, que horror! Como explicar em cinco minutos um outro mundo à Dona Zilda? Que maconha faz bem, que o amor livre é maravilhoso, que bom é tomar banho nú de cachoeira em Maromba e depois meditar com os Hare-Krisna. Beijar na boca dos amigos, de preferência 3 ou 4 ao mesmo tempo e claro, nunca pentear os cabelos! Como? Missão impossível!

Chegando na bilheteria do teatro, Guido me puxou num canto.
– Isso é problema teu, leva ela lá pro balcão de cima e se vire sozinha, bom show! – E sumiu com a "galera bata indiana" em direção á platéia.
Dona Zilda assistiu o show inteiro com uma mistura de encantamento e espanto. Encanto com a voz quebra-cristais e espanto com a nuvem densa de fumaça com cheiro suspeito que reinou no teatro.
– É incenso, mamãe, pra espantar os maus fluidos...
Nem em cinco minutos nem em cinco anos conseguimos explicar nossas "outras palavras" para Dona Zilda, sempre agarrada ás suas convicções e valores, como a bolsa que sempre carregava no ombro com o braço por cima pressionando-a junto ao corpo. Medo que roubassem suas certezas.
Por respeito à ela e temendo o corte da mesada, a gente tocava as diferenças ideológicas com a barriga.
– Essa tua nova amiga com esses dedos arreganhados dentro da sandália de couro, tem cara de quem "puxa" maconha – Eu pensava nos cruzeiros da mesada.
– Não, não, imagina mamãe.....tchauzinho, vou pra praia, não precisa me esperar pro almoço.
Dias depois:
– Este teu amigo que veio aqui outro dia dobra tanto os pulsos. Será que ele é...– Eu pensava nas conquistas já adquiridas de voltar depois da meia-noite.
– Tô atrasada pra aula de inglês. Beijinho mãe, tchau!
Dona Zilda vivia desconfiada de tudo. Possuida de uma fantástica expressão corporal, ela nos alertava:
– O caminho que eu mostro pra vocês...– E colocava os braços em paralelo na frente do corpo, as palmas das mãos, separadas de frente uma para a outra, mediam a distância de uns 20 centímetros mais ou menos, os braços seguiam um movimento contínuo ritmado, como uma linha reta, uma estrada sem curvas – ... é este! O caminho certo, direito. Mas se vocês escolherem outros caminhos...– Os braços antes tão harmonicos se jogavam para cima, sacudindo num ritmo frenético, as mãos tocando mil tamborins imaginários – ... é problema de vocês!
Resultado dos turbulentos anos: todos felizmente "desencaminhados". Nada saiu como Dona Zilda tinha planejado. E isto era motivo de brigas intermináveis, conflitos insolúveis.
Eu e ela. "Pólos iguais se repelem". A Lei descrita nos meus livros de Física era presença constante no apartamento do Campo de São Bento. Eu sabia que precisava seguir meu próprio "(des-)caminho". Com dezoito anos na carteira de identidade, liguei pra ela no escritório e avisei.
– Não precisa me esperar para a janta. Tô indo hoje pra São Paulo.
– Volta quando? – Ela quis saber.
Ficou sem resposta. Voltei depois pra visitar, pra passar a páscoa e etc. Também sem resposta ficou quando lhe disse que não estaria presente no Natal por que iria para a Europa. "Volta quando?". No ticket de avião e na minha cabeça, só havia passagens de ida. Voltas só para passar férias.
Os anos passaram com um oceano nos separando e parece que a distância me deu a visão certa da pessoa minha mãe. É como um livro que se coloca bem perto do rosto. Atrapalha, irrita e não consegue-se ler nada. Afastando-me, pude "lê-la" mais e melhor. Entender sua cabecinha e seus valores que durante todos estes anos continuaram intactos. Aceitando pra poder entender. Entendendo pra poder aceitar. Mas o oceano de distâncias ajudou também a compor o "Aus dem Augen, Aus dem Sinn" (o que os olhos não vêem, o coração não sente). E assim fomos levando.
Um belo dia, Dona Zilda me liga.
– Anota aí, minha filha: AR 3480
– O que é isto, mãe?
– O número do vôo. Tô chegando na sexta pro café da manhã.
E agora? Dona Zilda na Áustria! E na minha casa! Só para uma "pequena temporada de 2 meses", como ela fez questão de frizar.
No primeiro dia caiu numa profunda deprê. Um pais sem área de serviço nem tanque nos apartamentos. Sem quarto de empregada e o pior de tudo: sem empregada! "Coitada da minha filha".
– As máquinas fazem tudo, mamãe... lavam pratos, roupa...
Seus olhos passearam sobre o lustre sujo, pela estante de vidro empoeirada... Ela intencionou falar qualquer coisa mas se conteve. Depois do baque inicial, aprendeu a curtir o ambiente e a cidade. Descobriu a delícia que é tomar banho de banheira, comer linguiça na rua, andar sem medo de assaltos...
Já foi para ela uma aventura deslumbrante ir sozinha ao BILLA (Supermercado) fazer compras. Pegar metrô, ônibus ou ir muito longe de casa sozinha ela não queria. Tinha medo de se perder e não conseguir voltar. Eu trabalhava muito e ela ficava sozinha em casa, cozinhando, cozinhando. Ligava pra mim no escritório: "Minha filha, a carne-seca tá pronta. Tá aqui me olhando do tabuleiro. Ficou linda! Só falta falar a danada! Passe no mercado e me compre um arroz decente por que este tal de Basmati achei um horror!" Leu todos os livros em português que existia aqui em casa. Fez tricot, crochê, costurou meias, consertou cortinas...
Uma bela noite, me arrumei toda, pendurei meus balangandães (tinha a quem puxar!), catei batom, celular, enfiei um discreto embrulhinho na bolsa e fui até a sala onde ela via o video de "Orfeu Negro" pela terceira vez pra me despedir. Me abaixei e estiquei o rosto para beijá-la.
– Aonde você vai? – Ela afasta meus balangandães do seu rosto enquanto procura meus olhos.
– Vou encontrar uns amigos.
– Eu quero ir também.
– Mas a gente vai falar alemão...
– Mas a Mariana e a Verinha não vão?
– Dona Zilda, lá não é lugar de velh.. digo senhora
– E você é o quê? –
– Uma mulher, ora bolas! – respondi impaciente ajeitando os sapatos de salto alto. – Sentada no sofá, ela segurou minha mão e me olhou nos olhos. O tempo voltou no espaço. A mãe onipotente que eu, menina, precisava levantar a cabeça pra ver seu rosto, se transformou numa senhora de olhos vividos e enrugados que me encarava por trás dos óculos como uma criança pedindo bala.
– Eu também sou uma mulher, minha filha, deixa eu ir?
– Ô, mãe, depois de uma hora você vai ficar com sono e vai me encher o saco pra ir embora...
– Num vou não, vou ficar quietinha... Me leva com você?
Impaciente, soltei uma bufada de ar. Como sair desta agora? Doida pra tomar umas cervejinhas, o taxi esperando lá embaixo. Decidi acabar de vez com a velha e fora-de-moda hipocrisia ideológica que nos separava uma da outra. Coloquei minhas mãos na cintura, requebrei os quadris um pouco pra esquerda, olhei-a firme nos olhos e disparei:
– Olha, Dona Zilda, nós vamos fazer fofoca dos maridos, das sogras, falar mal dos austríacos, falar sobre botox e silicone, as bichas loucas minhas amigas, vão soltar a franga e – separei minhas mãos medindo a distância de uns 20 centímetros mais ou menos – vamos fumar um baseadão deste tamanho! Tá pronta pra encarar esta? Então gema! (=vamos!)

Obs 1: A foto da cachoeira em Maromba é do Muru lá pelos meados dos anos 80...
Obs 2: Se você está usando cinto dourado e vestido de lastex pela primeira vez na vida, não sabe provavelmente qual novela eu adorava ver. Clique aqui para saber e obrigada Youtube! por poder ver Julia dancando de novo

Sexta-feira, Setembro 14, 2007

Bushando

Dizem que é a proteção de tela mais famosa nos Estados Unidos. Clique aqui para ver Se "ele" ficar entalado, clique nele e arraste-o com o mouse.....gire-o bastante, pendure-o pela perna ou braço, bata com a cabeça nas bolas etc.. Divirta-se!
Obs: Acho que aí no Brasil "neguinho" vai querer copiar a idéia colocando uma outra pessoa...

Quarta-feira, Setembro 05, 2007

Short Cuts 2

Thadeuzinho na estréia
No primeiro dia de aula do Thadeu, resolvemos, no último minuto, ir todos juntos levá-lo para a escola. E que surpresa ao chegarmos na porta. Parecia entrada do Maracanã em final de campeonato. Os pais filmando, fotografando. Avós, avôs. Todos alegres, excitados. Pudera, aqui mané nunca tem filho e quando tem é um só e olhe lá! Então cada coisinha nova é celebrada com toda a polpa e importância do mundo. Os pais e avós acabam vibrando tanto quanto a criança por que é um acontecimento único para eles também!
Cada criança carregando um Schultute que é tradição aqui. Um imenso cone de papelão com vários doces e guloseimas que elas ganham de presente para celebrar o primeiro dia de aula. Nós, como somos schlau (=espertos), no dia anterior, pedimos para Thadeuzinho desenhar na cartolina o que quisesse e grampeamos. O pai encheu de doces, frutas e amendoim e ele foi o único com um cone realmente original. Ficou todo orgulhoso.

Tô começando a acreditar que escola aqui é algo mesmo muito sério. Maridão sempre me avisou mas ontem, ouvindo o diálogo de Thadeuzinho na banheira com o irmão, tive a certeza disto. Com apenas dois dias de aula, o guri tá cheio de novas palavras.
– Thuthu, isto tem que ser feito com "sistema". Olhe só o "método", é assim...– E encheu a cabeça do irmão de shampoo.
– Thuthu, agora vamos fazer um novo "projeto" com o caminho das águas. Ela vai descer por aqui e vc pega ela lá... – Colocou o regador na mão do irmão. Vida escolar pra ser levada á sério...

Rio de des-agostos!
Cofesso que é meio estranho morar num continente assim... pra quem nasceu do lado de baixo do equador... Pois é, Thadeuzinho começou a escola e a família inteira está se re-estruturando: acordar cedo, chegar na hora, encarar as nuvens cinzas e o frio bem cedinho... E como o ano letivo aqui começa em setembro, as férias de verão são em julho e agosto. Pra nós, significa by-by Brasil e o Rio de Janeiro, Fevereiro e Março... Era ótimo poder dar uma quebrada no longo e cansativo inverno e voltar com novas energias pra encarar os meses que faltariam até o verão. Daí é estranho, eu agora, desarrumar nossa bolsa de baden (=banho), olhar para o biquini e saber, ter a terrível certeza e coinciência que só vou usá-lo ao ar livre daqui a nove meses. Que parto! E pra completar a melancolia, comi meu último pedaço de goiabada. Como se diz mesmo lá no Rio: Ninguém merece...

p.s: Nova crônica já está no forno.

Quinta-feira, Agosto 09, 2007

Monstros fofos e raizes


As vantagens de estar desempregada: Ter tempo pra curtir o que é realmente importante na minha vida.
Passamos a tarde fabricando máscaras monstruosas. Delícia!

E também pra cozinhar de tempos em tempos um feijãozinho pra não esquecer minhas raízes.

Arroz com brócolis, feijão e carne moída ensopada. Olhando assim, parece comida de porco? Mas tava uma delícia!

Sábado, Julho 28, 2007

Cap.28_ Auto-estima à milanesa

Chiiiii. Arroz gritando no óleo. Água, fogo baixo, tampa. Enquanto cozinha, vou dar uma olhada nos e-mails. Faz uma semana que mandei meu portfolio para aquela agência e até agora nada.
"Como aumentar seu pênis" – Bateu na porta errada. SPAM, Deleta (Apagar).
"O senhor deve 1285 Reais à TIM" – Oi?– SPAM, Deleta.
"Aumente sua contagem de espermatozóides" – No thanks, pelo tamanho da cria estou pensando é seriamente numa Vasectomia.– SPAM, Deleta.
"Emagreça dormindo!".– E engorde acordada! Faz sentido. – SPAM, Deleta.
Res: "Apresentação".
É ele! Caraca, finalmente respondeu.
"Cara Senhora Mares, Muito obrigado pelo envio do teu portfolio mas sinto informá-la que a senhora não será chamada para a próxima rodada de apresentações na nossa agência. Atenciosamente, Sr. Arschi Lok."
Silêncio. A respiração presa. Os olhos arregalados no monitor. Leio de novo. Sangue quente na cabeça. Aperto o botão – Responder-
Res: Então vai á m°rd@! Atenciosamente, Lina Mares.
– Enviar – ? O mause parado em cima do botão. Meus dedos indecisos parados em cima do mause. O dedo indicador impaciente esperando a ordem para atirar– Enviar – ? Ah, não, deixa pra lá. Melhor deletar (apagar). Só falta agora deletar o estrago que este b@b@ca fez na minha auto-estima. Não serei convidada nem para uma apresentação para concorrer ao cargo de designer para esta agência de publicidade. Sabe a mosca do cocô do cavalo do bandido? Sou eu nesta sexta-feira calorenta. Eu em pessoa, digo em mosca, rondando pela casa, tonta, enraivada, as palavras zunindo na minha cabeça, "Sinto informá-la", o cheiro do cocô, a pata enorme do cavalo que quase me esmagou, "rodada de apresentações", o mau-hálito do bandido... Embrulho a panela de arroz com jornais, toalha de mesa amarrada por cima. Filé de peixe, limão, sal, ovos, farinha de rosca. Chiiiiii. Deito os filés na frigideira. Ding-dong. Toca a campainha. Quem será? Direto na minha porta, logo agora que começou a agarrar no fundo...
– Pois não?– Pergunto eu limpando as mãos no avental. Um rapaz todo animado e bem vestido pergunta se aqui é uma agência de publicidade. Mosca?
– O senhor está procurando o quê? – Revido de mau-humor. Chiiiiii. Um olho no moço e o outro na frigideira. Deu pra perceber que colocou a melhor roupa. Sorriso muito simpático, cheio de entusiasmo. Bandido mastigando capim. Mosca alegre sobrevoando.
– É que eu sou designer e queria me apresentar...
Meus olhos ficaram úmidos. Ás vezes a vida se torna um quebra-cabeça tão óbvio. Num primeiro impulso, queria retribuir a (in)gratidão que eu mesma tinha acabado de receber via net e dar uma resposta tipo: " A "rodada de apresentações" está encerrada! Mas respirei fundo e minha veia dalai-lama-maria-tereza-de-calcutá-mãe-meniniha-do-gantuá pulsou mais forte. Além disso, eu estava cheia de curiosidade pra ver o que ele tinha pra apresentar. O cavalo abana o rabo. A mosca atingida fica tonta no ar. Pedi para ele esperar um pouco, corri para o fogão, virei os filés, voltei.
– Me mostra aí o que você tem.
Minhas impressões digitais "pescais" marcavam cada página. Enquanto folheava, lembranças ficaram vivas, coincidências tomando formas, cores e sentido. Voltei a fita. Paris, agosto de 1987, eu com meu melhor modelito, portfolio debaixo do braço (êta carma!), retocando a maquiagem e ajeitando os cabelos nos reflexos das janelas do "métro", escondendo os chips de banana na bolsa que eu comia aos quilos de ansiedade, cheia de esperanças e ilusões batendo de porta em porta, na boca o precário inglês "Brasas" livro 2:
– Hy, I am model and I am looking for an agency. (= Sou modelo e procuro uma agência) entregava o portfolio e esperava ansiosa pela sentença final que era sempre a mesma: "No. Thanks. By." O bandido arrota. A mosca pousada no chapéu, se assusta e voa.

Este aqui pela qualidade dos trabalhos também não seria chamado para a próxima "rodada de apresentações", pensei misturando raiva e alivio enquanto folheava a pasta de plástico vagabundo cheio de fotos de animações de gosto duvidável. Mas tive compaixão com o cara (afinal era eu que estava ali!). E sabia que mais cedo ou mais tarde ele conseguiria algo como eu também consegui. Afinal, água mole em pedra dura...
– Por quê você não ligou antes?
– Eu não tinha o número...
No dia mais quente do ano onde metade dos vienenses está nos piscinões e outra metade está dentro do danúbio, o cara resolve ir de porta em porta pra procurar emprego. O cavalo pisa no coco. A mosca entra no ouvido do bandido irritando-o.
– Espere mais um minutinho. Peixe raus, banana rein. Tiro o peixe e coloco no lugar as bananas em rodela. Chiiiiii. Volto para a porta.
– Ok. Negócio é o seguinte: Aqui existia uma agência de ilustradores, eles se mudaram para o primeiro andar. Toca lá e fala com meu marido.
Ele abriu seu melhor sorriso e agradeceu muito. Apertou minha mão e todo animado foi descendo as escadas. Eu, a mosca do cocô, fiquei parada na porta vendo-o ir embora. Paris, Viena, modelo, designer, eu, ele, a vida dá voltas e te leva de volta. Chiiiiii. Voltei correndo pra cozinha e sacudi as bananas na frigideira. Peguei o telefone. A veia calcutá-gantuá bombando:
– Maridão, vai bater aí um cara procurando emprego. Diga para deixar seu nome e telefone que lhe chamaremos para a "rodada de apresentações". – Uma mão segurava o telefone e a outra desligava o fogo.
– Do que você está falando, Lina? Como assim "rodada de apresentações"?
– Depois eu te explico. – O papel absolvente ficando transparente de gordura. – E assim que você terminar, suba para comer um peixinho cubano.
Na travessa refratária, filés e bananas descansam. Pedaços da minha auto-estima banhados no ovo batido e envolvidos na farinha de rosca. Quantas portas ele precisará bater? Pedra dura. Um pouco de manteiga em cima do arroz fresquinho. Em quantas portas eu bati, naquele verão em Paris? Foram muitas, muitas mas semanas depois ouvi o bálsamo: "Uau, fine, I want you!" Água mole. O rádio anuncia que os termômetros registraram hoje o dia mais quente do ano. Quantos e-mails até ser chamada para uma "rodada de apresentações"? Maridão não vai entender nada... Como traduzir água mole?
O bandido come coco e morre. A mosca pousa no cavalo e se transforma numa amazonas. Cavalgam...

Segunda-feira, Julho 23, 2007

E-mail da Amanda

Para facilitar o acesso dos gringos aos jogos pan americanos, a prefeitura resolveu adotar um novo método, são as placas de trânsito do pan com os nomes dos bairros em "INGRRRÊS BRITÂNICO":

Big Field - Campo Grande

Will Go now - Irajá (essa é muito boa)

O walk there - Andaraí (rs..)

Dry Square - Praça Seca

Set fire -Botafogo

Customers - Freguesia

Set black people free - Abolição (sem comentários.. .)

Very very Holy - Santíssimo

Wait a minute - Paciência

Setting free - Livramento

Good Success - Bonsucesso

Very deep island- Ilha do Fundão

Grandson Rabbit - Coelho Neto

Hard Cover - Cascadura

Priest Michael - Padre Miguel

Mercy - Piedade

Nice to meet you -Encantado

It's very cheap! -Pechincha

Nice stay - Benfica

Bless you - Saúde

Flag Square -Praça da Bandeira

Flagmen Funtime - Recreio dos Bandeirantes

Small Farm- Rocinha

Holy Cross - Santa Cruz

Hello, smile - Olaria

Mango Tree -Mangueira

Inside Mill - Engenho de Dentro

Alligator to the water! - Jacarepaguá

Sábado, Julho 21, 2007

Ar-condicionado para pobres


Austríaco também é criativo!
"klimaanlage für arme, bedürftige studenten".
- zum nachmachen:
aprenda a fazer aqui (em ingles)
http://www.eng.uwaterloo.ca/~gmilburn/ac/
die weichen kupfer"rohre" bekommt man in wien übrigens nur beim öag im 11. bezirk; baumärkte(obi, hornbach, baumax, zgonc, etc) führen kaum was kleineres als 15mm. liebe grüße und viel spaß beim basteln."
Foto e texto de Roland Hummer-Koppendorfer. Tiradas do jornal www.derstandard.at.

Sexta-feira, Julho 20, 2007

Verão em Viena


39 graus. A vela derretendo sem precisar de chamas!

Terça-feira, Julho 10, 2007

E-mail da Zelia

Será que eles falaram isto mesmo????

"De nada adianta ter barriga de tanquinho se a torneira for pequena" - Tony Ramos

"Fumo maconha, mas não trago, quem traz é um amigo meu" - Marcelo Anthony

"Se o horário oficial é o de Brasília, por que a gente tem que trabalhar na segunda e na sexta?" - Dorival Caymi

"Para seu marido não acordar com a macaca... Depile-se" - Cláudia Ohana

"Por maior que seja o buraco em que você se encontra, pense que, por enquanto, ainda não há terra em cima" - Dercy Gonçalves (ela acaba de fazer 100 anos!!!)

"Cabelo ruim é igual a bandido... Ou tá preso ou ta armado" - Ronaldinho Gaúcho

"Preguiçoso é o dono da sauna, que vive do suor dos outros" - Roberto Justus

"Seja legal com seus filhos. São eles que vão escolher seu asilo" - Itamar Franco

"Não me considere o chefe, considere-me apenas um colega de trabalho que sempre tem razão" - Galvão Bueno

"Malandro é o pato, que já nasce com os dedos colados para não usar aliança" - Zeca Pagodinho

"Todo mundo tem cliente. Só traficante e analista de sistemas é que tem usuário" - Bill Gates

"Mulher de amigo meu é igual a muro alto... ..sei que é perigoso, mas eu trepo" - Chico Buarque

"Casamento começa em motel e termina em pensão" - Romário

Sábado, Junho 23, 2007

Você virou gringo(a)?

Para você que mora há muito tempo no exterior e vem passar férias no Brasil. Relato aqui alguns fatos que aconteceram comigo durante a minha última estadia no Brasil.
Um peixe fora d'água, um estranho no ninho, um macaco procurando seu galho... Enfim, identifique-se se puder!

1_Você quase se esquece que o Brasil é talvez o único país do mundo que oferece Dutyfree-Shop na chegada ao país. Sai da loja carregado(a) de 51, Ypioca, São Francisco e adjacentes. (E pensar que antes você só tinha olhos para Black Label, Jack Daniel e coisas afins...)

2_Você já desembarca usando protetor fator 50 e repelente para mosquito.

3_Qualquer mosquito que vê, fica histérico(a): DENGUE, DENGUE!

4_Sabe falar Harald, Jürgen, Jorchen, Robert, Sven e etc sem gagejar nem torcer a língua. Mas leva três dias para decorar o nome da nova empregada que durante todo este tempo ouviu:
Altamira
Algemira
Algemada(?)
Almarilha
Tamarita
Marmita
Martinica
até conseguir: Almerita

5_Você faz questão de arrumar sua própria cama, lavar sua própria louça, deixando a empregada aflita e teus pais putos da vida por quê você quer saber se ela está registrada, se recebe 13. salário, férias e se o salário é remunerado de acordo com o custo de vida e etc.

6_Depois de ter tomado aquele farto café da manhã com mamão-brasil, manga da roça, um pãozinho careca quentinho com a manteiga derretendo por cima, molhado no café com leite...hum... Você parte para a primeira prioridade: Ver o mar. No caminho, dá uma paradinha na tradicional barraquinha do parque pra saborear um caldo de cana com pastel de queijo minas, êita trem bom! Algumas quadras depois, tenta desviar o olhar da padaria mais gostosa do bairro mas não dá. Aquele monte de frutas coloridas penduradas em caracol fazendo um enorme arranjo Carmem Miranda, o cheiro do frango assando... Pô, ninguém é de ferro, você tá de férias e o regime quisifú. Manda descer uma coxinha de galinha com catupiry e um bolinho de aipim recheado com carne acompanhando um copo duplo de laranja com acerola. Pra arredondar: um quindim de sobremesa.

7_Você chega na praia com este carregamento gastronômico na barriga, o termômetro eletrônico já marcando 32 graus ás 10 da manhã, olha rapidamente a paisagem desbundante, certifica-se de que está tudo lá: O Corcovado, o Pão de açúcar, a pedra da Gávea, o Museu... Anda em direção ao mar e cai na areia. O cansaço da viagem, o sol forte, os quilos de comida ingerida te fazem apagar ali mesmo.

8_Teu primeiro surto Brasil: Você acorda meio sonolento(a), meio sem saber aonde está, suando horrores... olha aquele marzão e se achando num FKK (praia de nudistas), arranca as roupas e cai na água. O mergulho te faz acordar: Você olha em volta e pensa: "Esses prédios... não é o Danúbio. Essa água marrom não é Grécia... Este cheiro...C@R@Lh°! Caí na Bahia de Guanabara! Fud@u!" Sai da água correndo e outro vexame: "Tô pelado(a)!" Tua sorte é que a (beira) da praia está vazia. (Claro, já viu alguém cair na praia de Icaraí?)

9_Teu segundo surto Brasil: Você entra no clube do bairro e pergunta quanto é a entrada. O porteiro de mau humor responde: "Aqui não é o piscinão de Ramos!" Você volta pra casa puto da vida e faz discurso de europeu socialista: "Sociedade elitista, burguesia decadente, blábláblá" Teu pai de saco cheio de ouvir que em Viena as piscinas são para todos, só 3 euros bláblá, liga para o amigo que é almirante e "assim ó" com o diretor do clube e consegue uma carteirinha provisória pra você curtir a cobiçada piscina.

10_Teu comportamento clubal é péssimo.
_ Em vez de usar o banheiro, você no meio da galera, troca o biquini ou calção por debaixo da toalha amarrada na cintura, deixando todo mundo ver sua cueca ou calcinha.
_ Faz topless.
_ Entra pelada(o) na Sauna...
Só não te expulsam do pedaço por quê já rolou o boato no clube que você é da Austrália...

11_Na praia então é um mico atrás do outro. As cariocas de bronzeado impecável e corpo escultural , se preocupam a cada minuto ajeitar os minúsculos biquinis no lugar certo, o sutiã quase perto sem deixar ver o bico dos seios, aa calcinha entrando na banda direita mais do que na banda esquerda, nem muito nem pouco, as alças nas devidas posições pra não tirar da marca do bronzeado. Os cariocas usam aquela sunga palmo largo por cima do corpo saradão, apertam seus devidos tesouros a cada minuto, ajeitando-os como se estivessem numa bandeja de prata. No meio deste cenário está você: Gordo(a), Pálido(a), deitado(a) na areia, igual a um bife á milanesa. Levanta e vai pra água, Pega "jacaré" no braço, leva soca e sai da água meio(a) pelado(a), todo(a) torto(a) com os cabelos cheios de areia rindo: "Oba! Levei uma soca!" A galera te olha assustada por que não sabem em qual categoria te encaixar: paraíba farofeiro? louco? gringo?

12_Você conjuga todos os seus desejos no pretérito imperfeito e pede ao assensorista de elevador: "Eu gostaria de ir ao 22° andar..." e fica sem saber o que dizer quando ele, irritado, responde: "Ué? Gostaria? Num quer mais não? Tudo bem, tá limpo, tem nada não..."

13_No Barzinho você pede caipirinha ao invés de chopp e fica puto por que o garçon bota vodka ao invés de cachaça.

14_Você é dez vezes mais rápido(a) do que o caixa do supermercado pra guardar as compras deixando o embrulhador de boca aberta: "Pô, cê é profi, cara!"

15_Você, mulher, fica toda feliz quando passa em frente a um prédio em construção e escuta assobios acompanhados com um: "Gostosa!"
O padeiro: "É uma bisnaga só, meu amor?"
O jornaleiro: "São cinco reais, meu anjo."
O camelô: "Pode escolher, minha Deusa."

16_Na feira, você quer comprar bananas:
– Pois não, freguesa?
– Eu queria um quilo de bananas...
– Qual, minha flor? Banana nóis tem de todo tipo e gosto, banana-prata, ouro? É pra comer hoje? É pra fritar? Pra assar no forno? Banana-pera, banana-maça, banana-figo, banana da terra, banana-nanica? Banana verde, banana madura? essa é pra amanhã, essa é pra hoje, pra quando a freguesa quer comer? É só escolher! Fala freguesa!
– ...Hum...é...âh...Tem chiquita?

17_Teus filhos não sabem quem é Xuxa. Na festinha de aniversário da priminha, os "baixinhos" cantam aos berros e dançam todas as coreografias da Xuxa projetadas num enorme telão. Teus filhos observam tudo pasmos, de boca aberta. O mais velho te pergunta cochichando no ouvido: "Mãe, quem é essa loira?"

18_Você ri dos nomes das lojas de roupas: "Abusiva", "Possessiva", "Animale", "Vestida para matar" (!?) E das bonecas manequins que mostram só as costas e o traseiro na vitrine.

19_Você anda meio quilômetro até encontrar uma faixa de pedestre com semáforo. Espera pacientemente o sinal ficar vermelho. Atravessa a rua atento(a) sempre olhando pra ver se os carros vão parar na faixa e POIN! É atropelado(a) pela bicicleta do supermercado que veio á toda na contra mão.

20_Antes de você morar no exterior, você era chegado(a) a um Rave, um luau na floresta. Agora você só quer saber é de Pagode, lotado de povão, naquele barzinho fuleiro no final da praia de Charitas (ui!)

21_Você não consegue compania pra sair por quê teus amigos que moram no Brasil não estão a fins de ir para o Morro da Mangueira comer Feijoada no Domingo regada a Samba. Não se interessam em ver documentários sobre Capoeira, filme sobre Cartola, dvd de Zeca Pagodinho...

22_Você combina com um amigo(a) num barzinho e paga o maior esporro por que ele chegou 20 minutos atrasado.

23_Você fica vermelho(a) e envergonhado(a) por que o amigo te devolve ás alturas o esporro: "Qual é, gringo! Isso aqui é Brasil, morou? Relaxa e goza! Ainda não aterrizou, mané?"

24_Vocês começam a conversar, aliás, tentar conversar, ele ri do teu vocabulário multiregional- brasilês e você da penca de novas gírias que não conhece.
_ E aí? conta, meu! Como tá o cabra da peste do teu bofe?
_ Cabra? Ah, sim. Ele vazou...
_ ...... Como assim? Chama um bombeiro...

25_Você pega Dengue e quase morre! Os outros dengosos chegam no hospital para o exame de plaquetas já de gravata e depois vão direto para o trabalho. Você chega carregado(a), passando mal, chora, se desespera, treme e parece mais frágil do que um mosquito... Te internam por uma semana.

26_Perto da data de retorno, você diz que tá voltando "pra casa". Você tá levando na mala de presente para os amigos e familiares gringos coisas "exóticas" do Brasil: Havaiannas, Goiabada, Mariola, Paçoca, Chuvisco, Doce de Jaca, Pé de moleque e uma bolsa cheia de colares de côco, anel de côco, brinco de côco, cinto de côco...enfim, um monte de cocô!

27_Teu linguajar está desbotado e confuso por que onde você mora, você fala "gringês" a maior parte do tempo e de vez em quando encontra sua meia duzia de amigos brasileiros que são capixabas, paulistas, baianos, cearenses... Mas você só percebe que o negócio tá brabo mesmo quando você pede uma informação na rua e a pessoa te responde falando devagar e bem claramente achando que o português não é a sua lingua natal.

28_Você cai na gargalhada e depois numa profunda crise existencial quando um(a) vendedor(a), meio tímido e com muita cerimônia, quer saber:
- Desculpa a pergunta mas você não é daqui não, né?
E você responde rindo:
- Eu? E-Eu sou daqui, ué!
- Daqui aonde?
- Eu nasci aqui e...ai eu fui, eu...Ah, deixa pra lá!
- Mas daonde você é?
E você responde atônito:
- Eu, eu...E-Eu não sei, não tenho a menor idéia...

Quinta-feira, Maio 24, 2007

Êita nóis!!!

Enquanto não acho tempo pra acabar as crônicas...

O mineirin estava de férias no RJ, quando viu o vídeo da Daniela Cicarelli.
Na praia, engatou uma americana, levando-a para a água para saciar os
instintos: uma transa molhada.
Ele era competente no que fazia, deixando a americana cada vez mais
endoidecida.
Até que ela não aguentou e gritou:
- ONCE MORE, ONCE MORE!
E o mineirin:
- BELZONTE! BELZONTE!

Segunda-feira, Maio 14, 2007

Voltei!

Voltei! Deixei perfumes, Kernöl, cremes e sabonetes, geléias e tudo o que eles gostam e não tem lá. Deixei lá uma Dengue, o calor, a praia linda, os amigos e parentes queridos, a confusão, poluição, barulho. Trouxe meus pintos e maridão saudáveis de volta. Também trouxe um belo bronzeado, goiabada, paçoca, chuvisco, mariola, doce de jaca, havaianas, chá de boldo, uma imagem de Iemanjá, vinil da Clara Nunes, Zé Ketti, Jamelão, biquini manero...
Se sinto saudades? Claro, sempre! Daqui e de lá, pois uma vez estrangeiro, sempre estrangeiro... E vi muito gol do Mengão!
Volto em breve. Abrc, Li

Terça-feira, Março 20, 2007

Cap. 27_ Curriculum (mais que) Vital!

Me sinto tomando o ônibus 30 para o centro da cidade. Exames do vestibular. Será que estudei tudo mesmo? Torço pra conseguir lugar sentada e poder fazer uma rápida revisão da matéria. Ele chegava como sempre barulhento e soltando fumaça preta. Tlin, tlin. O trocador de testa suada e longas unhas no dedo mindinho, bate com uma moeda na barra de metal avisando assim ao motorista que pode partir. O ônibus arranca ainda de portas abertas. Bruuummmm. Mas não! Corta! O cenário é outro, só a sensação é a mesma. O ônibus chega no minuto exato. Silencioso, "inclina-se" para a calçada abrindo três portas ao mesmo tempo. O sensor eletrônico fecha as portas automaticamente antes do veículo partir. Todos encontram lugar para sentar. Viena, um porto seguro num mar agitado.

Aproveito para me preparar, tiro os papéis de dentro da bolsa enquanto penso: Será que não esqueci nada? Onde parei? Quem sou eu? E começo a estudar para a "prova":
1983_ Completa o 2 grau no colégio Gay-Lussac, Niterói
O cara com certeza vai franzir a cara e soltar um " Wie bitte, Gay?" (= Como assim? Gay?) seguido de um: "Nit, was?" (= Nit o quê?) Vou ter que dar minha respostinha padrão: Sabe aquela paisagem linda que você vê do Rio? o Pão de Açúcar, o Corcovado? A foto foi tirada lá, sabe? Mas não precisa virar de costas...E quanto ao Gay, que eu saiba, era um biólogo famoso)

Desço do ônibus em direção ao metrô. A passagem subterrânea parece um grande salão, pessoas se dirigindo para todos os lados. Me imagino numa pista de esqui, desvio dos passantes em passo lento como se fossem bandeirinhas fincadas na neve. Zum, zip, zum! Alguns me olham irritados: "Que valsa é essa?" Sim, por quê o vienês não anda nem corre, ele valsa pelas ruas. Escadas rolantes me levam para aonde eu quiser. Viena, um útero protetor num corpo maltratado.
Esperando o metrô, olho para a frente, o placar televisivo mostra a lua rodando: "Quem tem tendência á melancolia, deve fazer passeios ao ar livre hoje. Olho para cima, placar eletrônico avisa que em dois minutos o metrô chega. Viena, um berço limpo e acolchoado numa casa abandonada.
"Zurücktreten!" (=Afastem-se) O grito vindo do alto-falante corta meus pensamentos. Entro no trem. Cheiro de salsicha no ar. Todos sérios. O(a) Austríaco(a) antes de sair de casa, tira o sorriso, guarda no bolso e só tira em casos de extrema necessidade. "Zug fährt ab!" (=O trem vai partir) Faltam duas estações, será que chegarei na hora? Se tudo aqui é tão pontual, que desculpas darei para o atraso? Volto a estudar para a "prova".
1983/84_ Presta vestibular para Ciencias Sociais e passa para o segundo semestre.
Lá vem a perguntinha: – "E nestes 6 meses a senhora fez o que?" – Ficava o dia inteiro de bobeira em Itaquá, estiradona no sol, galera manera, autos banhos de mar, comia um sanduba do Marcelo natural, dava um rolé na prainha e...Pára, Lina, pára! Assim você não consegue nem emprego de faxineira pra limpar janela no inverno!
"Stephansplatz!" Caraca, tenho que descer! Coloco a papelada toda dentro do portfolio, páginas da minha vida, desarrumadas, soltas...Será que não esqueci nada? Onde parei? Quem sou eu?
Conexão linha laranja. Esqueci de bater o ticket, será que tem Kontroller* na área? Vagão vazio, lugar á escolher, amo Viena.
1984_ Cursa a Escola de Teatro Martins Pena no Rio de Janeiro.
Já sei o que ele vai quere saber: "Não concluiu por quê?" Por quê era um bando de chatos, rasta-panos, sei lá, cansei, virei New-Wave, pirei... Sabe aquela música: "Um belo dia resolvi mudar(...), me libertei daquela vida vulgar, que eu levava estando junto á vocêê!".....Tudo bem, eu aceito limpar as janelas mas só as partes de dentro!
Daí mudei mesmo:
1985_ Curso de modelo e manequim na Socila.
1985/86_ Curso de modelo e manequim no Senac.
Lina, errar uma vez é humano mas duas...Bem, isto prova como sou original. As outras são modelos e viram atrizes, eu era atriz e virei modelo!
Ele vai levantar as sombrancelhas: "Aber von Sozialwissenschaftlerin zum Schauspielerei dann Model???" (= De socióloga para atriz e depois Modelo?) Ok, ok, eu limpo as janelas de fora também!
Posso aqui dar uma resposta despojada tipo: "Pro Senhor entender: naquela época mulher alta e magra, ou era jogadora de basquete ou manequim!" Acompanhando um sorrisinho pra dar uma descontraída no clima...
As escadas rolantes do metrô me conduzem em ângulo ascendente para um céu azul que se não fosse o povo todo agasalhado eu iria intuitivamente pensar um hoje-vai-dar-praia. Ao invés disso, a escada me joga na rua e o vento frio bate na cara me fazendo cair na real. Odeio Viena.
Entro no luxuoso prédio. Ajeito os papéis do currículo dentro do Portfolio enquanto a recepcionista liga para o diretor criativo:
– Senhora Mares está aqui para entrevista ao cargo de designer.
Terceiro andar. Enquanto subo as escadas, os anos passam em revisão. Cada degrau, cada lembrança...Será que não esqueci nada? Onde parei? Quem sou eu?
1986_ Mudança para São Paulo. Trabalha como modelo e manequim pela agência Special.
Vinte aninhos e autônoma. Caia na noitada paulistana, Bexiga, Madame Satã, Cais..., durmia um pouquinho, lavava a cara com água gelada e ia para os Castings e Shootings e ninguém nem notava as olheiras... Bons tempos. E como estava bom demais, resolvi mudar de novo:
1987_ Chegada na Europa.
Aí que eu vi com quantos paus se fazem uma canoa - e tô vendo até hoje! Segundo andar. Escuto meu coração bater. Nervosa. Há um mês que esta entrevista está marcada e agora faltando poucos degraus, não consigo me lembrar de tudo o que já fiz, por onde já andei...O que vem agora? Ah, claro:
1988_ Mora em Paris e Londres trabalhando como modelo.
Peraí, Lina, mentira Deus castiga. Correto é tentando trabalhar como modelo. Arrumadeira, Panfleteira, Cozinheira, Breakfasteira*... Nesta fase aqui é mais prático se ele perguntar que tipo de trabalho eu não fiz.
1989_ Mudança para Viena.
Com certeza ele vai fazer aquela perguntinha clássica: "Por quê Viena?" O Austríaco e seus complexos de inferioridade. Opalá. Acabou os degraus. Levanto meu olhar e deparo com o dito cujo na minha frente.
– Hallo, Frau Mares. Ich bin Schöpferberg. (= Oi, Senhora Mares. Sou Schöpferberg)
O homem elegante de terno caro e perfume um pouco além da conta me estende a mão e um sorriso. Minha primeira impressão foi palpite bicha nível 2 para 1. Explicando: nível 1_ É bicha assumida e resolvida. Não precisa de artifícios fashion para esconder nem mostrar nada. Nível 2_ É bicha e ele mesmo não sabe que é! Com o passar dos anos, sempre tentando tapar o sol com a peneira, acaba virando um assexuado com óculos quadrado de aro grosso e calças acima da cintura. Nível 3_ Não é bicha e só por que não senta de pernas abertas, não fala grosso e não coça o saco, minha arcaica educação latino-americana o julga como tal! Sendo assim, suspirei aliviada, com bichas me sinto daheim (=á vontade, em casa)
Ele me guia através de um corredor comprido até a sua sala, No caminho fez a primeira perguntinha de praxe e a resposta como sempre teve efeito imediato. Ele pára de andar, vira-se para mim, os músculos facias relaxam, o rosto se ilumina. Fecha os olhos e suspira jogando o corpo um pouco para trás enquanto abre os braços para cima como se louvando á Deus e diz com melodia na voz:
– Aus Braaa-siii-lieeen! (= do Braaa-siiil!) Pude escutar os tamborins tocando nos seus neurônios. Vi o contorno do Pão de Açúcar refletidos na sua córnea. Se fosse brasileiro jurava que tinha pego um santo! Qual seria a reação se disesse que sou do Egito? Ou Equador? Sudão? Um dia minto só por curiosidade.
Entramos na sua sala. Me deparo com as janelas empoeiradas e faço uma piadinha pra mim mesma: Ai, Lina, se não rolar como Designer... Sentamos um de frente ao outro. Uma mesa grande nos separa.
Ele, já recuperado do choque Brasil, parte para a segunda óbvia perguntinha:
– Aber warum Wien? Rio ist doch so schön... (= Por que Viena? O Rio é tão lindo...)
Caraca, ele começou o interrogatório justamente onde eu tinha interrompido a minha retrospectiva. E agora? Onde parei? Quem sou eu?
– Por que queria passar o natal com meu primo e fui ficando, ficando...
– Einfach so? 18 jahre? Ele folheava o Lebenslauf (Curriculo) que no meu caso é literalmente uma vida em corrida!* – Langer Besuch, oder? (=Visita longa, né?)
Eu posso também limpar o porão do prédio, vai...
– É... Eu continuei trabalhando como modelo (digo tentando trabalhar) Afinal, – Me ajeitei na cadeira, levantando o queixo e olhando firme para ele – Sou uma mulher persistênte, tenho perseverança! (pra não dizer cabeça dura!) E ao mesmo tempo, fiz cursos de alemão, cozinhei num restaurante Mexicano...
– Aber alles gleichzeitig? (=Tudo isto ao mesmo tempo?)
E ainda dava pra sair depois do batente, dançar no Volksgarten, comer uma Wurst na barraquinha da òpera... Cê num sabe de nada, cumpadi!
– Sim! Como o senhor pode perceber, tenho grande talento para Zeitmanagement...(= administrar o tempo)
Ele não precisa ficar sabendo que as tortilas queimavam, que não passava em casting nenhum por quê engordei horrores comendo linguiça e com a cabeça ainda tonta de Weissgespritz (= Vinho branco + Soda) do balaco anterior, não havia como entender os acusativos, genitivos e todo o resto desta lingua danada...
Ele serviu um cafezinho. Enquanto saboreava o café, ele olhava o tal papel (páginas da vida!) como devorando um crime de suspense. A conversa foi ficando mais informal e eu pra variar abri de novo o livro da minha vida assim tão ingenuamente. Contei do blackmarket loja de discos e bar, onde servia café para os melhores Deejays da cidade, vendia Red Bull nas festas do Gasometer, misturava Cocktails no legendário "Die Bar" na Sonnenfeldgasse...
– Eu frequentava muito o "Die Bar"– Observou-me por cima das lentes enquanto tomava mais um gole de café. Seu olhar era uma mistura de simpatia e espanto.
– Pois eu sabia que você não me era estranho. ..–O café estava muito forte para o meu gosto. Tentava recordar o que tinha colocado na minha própria vida, digo no papel que já nem me lembro, tantos empregos, tantos países, Onde parei? Quem sou eu?
Ele queria saber mais.
– Você lembra da Freihaus?
– Claro! Era nosso ponto de encontro. Meu primo trabalhava lá...
– O Ja-Bar que só abria ás 5 da manhã e...
– ...era a esticadinha obrigatória depois que o "Die Bar" fechava...– Rimos, cúmplices de um universo chamado Viena anos 90.
Olhava para mim, sorria, olhava para o curriculo entusiasmado. Me senti vendendo um roteiro para filme de aventuras. Mas o que eu vim fazer aqui mesmo? Onde parei? Quem sou eu?
1994_ Estuda Publicidade na Universidade de Viena
– Não conclui por que tinha que trabalhar no Kiang*...
– Kiang? Eu adoro comer lá! – A entrevista (que entrevista?) para emprego (que emprego?) tomou rumos de papo animado. Na ausência do fator bofal (homem heterosexual), não precisei me preoucupar em ser mal entendida com a minha falta de distância e privacidade. Além do quê, a pinta de bicha do cara contribuiu pra uma certa afinidade. Bichas adoráveis, o que seria do mundo sem elas!
–... Fui me virando, fui levando até que um dia falei chega! Comprei um computador e virei Designer...
Ele como se saindo de um transe, acordou no meio do filme. Afastou de repente as taças de café para um canto da mesa, ajeitou os óculos no rosto e me encarando, perguntou num tom agressivo:
–"Virou? A senhora não teve uma formação profissional? Não cursou a Universidade?" – Levantou o queixo e retomou a postura profissional tensa. As rugas de expressão fazendo fendas no rosto.
– Não! – Irritada com a mudança do personagem, parti pra defesa– Como tantos outros grandes e geniais, não fiz! Stefan Sagmeister, Hans Donner (ui!), Neville Brody....– Fui falando qualquer nome de designer que me vinha em mente.
– E o senhor? Por acaso fez? – Perguntei num tom irônico.
– Eu completei minha matura brilhantemente, fui o primeiro aluno da Angewandte*, me formei com 23 anos, estou há 15 anos nesta empresa...– Meu sangue subiu, irritada com a súbita arrogância, resolvi ser radical e acabar com esta palhaçada. Levantei bruscamente e, falando alto, parti pra cima dele:
– Então me dá licença por que em termos de criatividade eu dou de dez a zero no senhor! Levanta dai desta cadeira que este lugar é meu! – Ocupei a poltrona que foi cedida pelo perplexo "ex-diretor" em completo estado de choque.
– Pegue este paninho aqui e comece já a limpar as janelas, até o meio-dia quero ver tudo limpinho, tá? – Coloquei os pés na mesa, recostei-me na confortável poltrona e, sem dar-lhe tempo para reagir, exigi:
– Ah, e da próxima vez faça um cafezinho mais fraco, viu?
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*Kontroller = Fiscal que aparece de vez em quando á paisana pra controlar quem está com tickets válidos de transporte.
*Breakfasteira = Garçonete que serve café da manhã (a palavra é invenção minha mesmo!)
*Kiang= Restaurante chinês "modernoso"
*Angewandte = Renomada universidade de artes de Viena
*Lebenslauf = Curriculo, sendo que Leben = vida, laufen = correr! (vida em corrida!)

Quarta-feira, Março 14, 2007

Castigando os japas!

Você já pensou quanto trabalho provoca enquanto fica mexendo este MOUSE pra lá e pra cá? (Clique na palavra Mouse e movimente-se dentro do círculo. Mas não abuse, hein, tenha peninha dos japas!)
p.s: Para ver, é necessário ter Flash instalado

Sexta-feira, Março 09, 2007

Scrap do amigo cearense

Pergunta: Oi minha linda, como foi o dia da Mulher?
Deixou a cozinha em protesto neste dia?
ha,ha,ha!
Xêrin c/rapadura, Ald
Resposta: Foi um dia normal, só que tive que apagar uma pá de mensagens idiotas tipo: "Você mulher, maravilhosa, poderosa... Nós mulheres que tudo podemos..." e coisas afins...argh! Papo de sapata enrustida! Se quisermos lutar pelos direitos da mulher no mundo em todos os níveis, que seja 365 dias por ano! Me nego a ser vitimada e rotulada de problema. Senão a gente em vez de se emancipar, acaba virando índio como já cantava Baby Consuelo: "Todo dia era dia de índio. Mas agora ele só tem o dia 19 de abril!"
Sacou o lance?
Beijos, Li

p.s: Abaixo, vai uma petição para que seja decretada o dia internacional da x0x0t@ poderosa e dia internacional do p_rú fenomenal!
Assine!
1) Lina Mares
2) Maridão
3) ...

Quarta-feira, Março 07, 2007

E-mail da Clarinha

Terremoto no Ceará

Depois dos terremotos ocorridos na Ásia, o Governo Brasileiro  resolveu
cobrir todo o país.
O então recém-criado Centro Sísmico Nacional,  poucos
dias após entrar em funcionamento, já detectou que haveria um grande
terremoto no Nordeste do país. Assim, enviou um telegrama à delegacia de
polícia  de Icó, uma cidadezinha no interior do Estado do Ceará.

Dizia a mensagem :
"Urgente. Possível movimento sísmico na  zona.
Muito perigoso. Richter 7. Epicentro a 3 km da cidade. Tomem medidas
e informem resultados com urgência."

Somente uma semana depois, o Centro Sísmico recebeu um  telegrama que
dizia: "Aqui é da Polícia de Icó. Movimento sísmico totalmente
desarticulado. Richter tentou se evadir, mas o cabra foi abatido a tiros.
Desativamos as zonas. Todas as putas estão presas.
Epicentro, Epifânio, Epicleison e os outros cinco irmãos estão detidos.
Não respondemos antes porque houve um terremoto da porra aqui."

Quarta-feira, Fevereiro 28, 2007

Ba-ba-Banco rendido!

Ontem um banco na rua mais movimentada de Viena foi rendido por um homem com uma pistola. Ele fez 6 empregados e um cliente de refém. Em menos de um minuto a polícia estava no local. Fecharam a rua. Cem (100!) carros de polícia cercaram o banco. Wega, a seção especializada da policia para resgates, estacionou um Panzer (tanque de gerra) na frente do banco. O "Wiener Rettung" (Equipe de Salvamento) veio com um comboio. O prédio da frente foi evacuado e ocupado pelos policias da divisão especial ("Cobra"). A televisão filmava ao vivo. Um batalhão de reporteres faziam a cobertura direta. Depois de duas horas o assaltante finalmente reivindicou algo: cola-light e cigarros. Depois de ter saciado sua sede, ele se mostrou mais cooperativo e em menos de 5 horas, todos os reféns estavam soltos. Ele mesmo saiu com a última refém com as mãos para cima e foi imediatamente rendido. Veja o vídeo do resgate aqui!
A cidade suspirou de novo aliviada. Hoje manchete em todos os jornais. Análises, entrevistas, mesas redondas...




Durante o Resgate, um repórter de um jornal popular ligou para o banco e falou diretamente com o Täter, esta é só pra quem entende alemão mas eu chorei de rir!
Veja e ouça aqui o vídeo do telefonema
A desistência estava explicada: O banheiro do Banco estava fechado e o cara depois de ter tomado a cola-light ficou numa situação difícil, antes de se molhar todo, resolveu se entregar! Repare: o jeans molhado...
Detalhe, last but not least: : A pistola era de brinquedo!
Os vienenses apelidaram o ocorrido de Ba-Ba-Banküberfall!

Terça-feira, Fevereiro 20, 2007

Cap.26_ Fasching nada!

"Fasching nada!
Sai da minha frente que eu quero passar-ar...
Pois o Samba está animado e o que eu quero é sambar!"

Eu sou do Samba e não nego. Sempre fui. Quando éramos pequenas, dona Zilda - minha mãe - fazia questão de montar duas fantasias por ano para mim e minha irmã. Me lembro da Carmen Miranda. Ela costurou uma mini-saia de baianinha com mini-blusa, no turbante frutas de plástico, brincos de argola quase do tamanho da nossa cara que deixava marca no lóbulo da orelha, nos pés um par de tamancos Dr. Schott pintados de dourado. E lá íamos para o matinê do Clube Marajoara. Bandinha tocando, as crianças dançando em círculo. Cresci e troquei os matinês por Arraial do Cabo, Búzios, Salvador. De férias no Brasil até saí numa Escola do Grupo B na Sapucaí.
Nesta época, sempre arrumo um jeito de festejar, não importa aonde eu esteja. Confesso que em Viena é tarefa árdua ter o prazer de encontrar o samba.
Domingão, amigos austríacos também com crianças nos levaram para dar uma olhada no Faschingsumzug (Desfile de Carnaval) de uma cidadezinha perto daqui. Todos muito preocupados comigo:
– Olha, Lina, não vá comparar, é bem diferente...
– Tranquilo, galera, tô acostumada!
Chegando lá, relembrei os matinês da infância. Tinha pirata, árabe, palhaços, princesas, pierrot e colombinas. A única diferença é que ao invés de 5, a faixa etária era de 50 anos...E ao invés de Mineirinho, eles entornavam Schnaps (cachaça).
Imagine como é o carnaval em pleno fevereiro no interior da Áustria: 4 graus, um frio da por..., um vento fud... e nada dessa história de sacanagem, erotismo, nudez (pudera, com um frio destes...). É tipo baile à fantasia mesmo. O austríaco é neste momento uma caricatura dele mesmo! Alguns nem precisam de máscaras, só um efeitosinho aqui e ali e pimba, tá montado o personagem de sí próprio!
Um carro atrás do outro, todo mundo organizadinho, enfileiradinho. E finalmente, depois de muito custo, alcançamos o carro brasileiro. Era uma meia duzia de passistas pingadas. As gostosonas na frente, as nem-tão-gostosonas atrás. O Deejay mandando brasa nos "alalaô" e "mamãe eu quero" da vida. As passistas de lábios sorridentes e roxos, dando tudo de sí. Me fez pensar o que seria pior, embaixo do sol de 40 graus ou neste frio de 4? Elas aqui enfrentando o vento e a cara fechadona do público. Dignas heroínas! Completamente rouca, segurando um gurí numa mão e a câmara na outra, fiquei sem saber como dar uma força, dar meu apoio. Chegar até a ala pra mim foi como se tivesse chegado no oásis. No meio do deserto do Sahara, a miragem do que seria um carnaval. Uma maquete feita de rude papier-machê (tipo aquelas que a gente fazia no ginásio pra passar de ano em Geografia). Mas pra quem tá morrendo de "sede", qualquer sambinha batido na caixa de fósforo vira uma bateria inteira da Viradouro. As decorações de papelão improvisando palmeiras... A "destaque" em cima do carro com uma calça adidas por baixo e luvas de lã... Meus amigos austríacos preocupados perguntam: "Lina, tá doendo muito?" Abrí um sorriso, os olhos cheios de água: "Não, gente, tá tudo bem, eu tô legal...tá..." Daí passou ela quase na minha cara, tipo "tô-nem-aí-quero-é-sambar", quase nua, solta, cheia de celulite, flácida, disforme, num corpo meio gordinho, tremendo, rodando, uma coisa tão espontânea, tão Brasil, uma bunda sem vergonha de se mostrar em todas as suas verdades estéticas. Uma bunda com Selbstbewüßtsein (segura de sí), em outras palavras, uma bunda bem resolvida. Naquele desfile no quinto dos infernos da Europa na porr.. do frio, ela reinava absoluta na avenida, tipo num tem pra ninguém! Eu fiquei impressionada com aquilo. Só dava ela no pedaço... Uma coisa é ver bunda por todos os lados. Bunda morena, mulata. Bunda redonda, perfeita. Bunda caída, desfigurada. Bunda famosa, bunda anônima. Outra coisa é ver uma única bunda no quinto dos infernos da Europa na porr.. do frio, no meio do povão agasalhado e de cara fechada (sorrir no frio dói os dentes!). Ali ela tomava conta de tudo. Alí não tinha Paes, Araújo nem Massafera, ela era a única, não tinha nenhuma outra (bunda-)concorrente, Ela era um Extra-terrestre na Constelação local. A única bunda a se mostrar plenamente, completamente...uma bunda digna de coragem, cheia de identidade, sem paranóias nem pudores, feliz de ser o que é, enfim uma bunda bem Brasil! Enfrentando o vento e a cara fechadona do público, a bunda feliz ia abrindo caminho entre os outros. Quatro graus e a bunda sacudia, um frio da po...e a bunda pulava, um vento fud...e a bunda rodava, o povo pasmo e a bunda sorria...
Eu então, de lá do quinto dos inferno da Europa na porr... do frio do cacet...no maldito do vento na cara, olhando pra ela, a bunda em si, abri um sorriso ao me lembrar daquela canção:
"Isto aqui, Ioiô, é um pouquinho do Brasil, Iaiá..."
Valeu, bunda! Você me fez, daqui do quinto dos infernos, do frio da porr...com esse vento fud...encontrar o samba!

p.s: Notícia de última hora: A ala brasileira ganhou- entre 40 outras alas- o desfile! Dá-lhe, Brasil! Bunda neles!
Foto de Michel Filho, O Globo. No Sambódromo, é claro! Por que euzinha mesma não consegui fotografar a bunda única de lá do quinto dos infernos da Europa pois ela tremia, rodava, pulava...e os meus dedos congelando, o guri berrando, o vento da porr...um frio do cacet...

Segunda-feira, Fevereiro 05, 2007

Cap.25_ Eu, Kaka e eles


As crianças já estão vestidas para ir ao jardim. Sentados com o papa tomando café da manhã. Tudo tranquilo. Já tomei meu chazinho verde, óculos de perto na mão, jornal de hoje. É agora! Entro de fininho, tranco a porta. Respiro fundo, me acomodo e tento relaxar. Meus olhos passeiam rápido pelas manchetes procurando a leitura ideal.
"A Discussão da Placa (Tafelstreit) com duas línguas de Jörg Haider"
O mundo morre a cada segundo e esses escrôtos ficam anos discutindo se é direito ou não colocar placa com dois idiomas em meia dúzia de cidades no fim do mundo da Caríntia, tô fora!
"Protesto estudantil contra a taxa de matrícula da Universidade".
Mané tá reclamando por que vai ter que prestar serviço social 2 horas e meia por semana (ou 60 horas por ano) para se livrar da matrícula. Coitadinho deles! É a Áustria acordando de mau humor do sonho socialista. Sugiro aos estudantes daqui tentarem as Unis públicas do Brasil, são todas de graça! Só tem uma coisinha antes que se chama vestibular...
"José Bové quer ser presidente da França".
Não é aquele fazendeiro que quebrava Mac Donalds? Isto ajuda por que me interessa, começo a ler: "O crítico da globalização e líder dos fazendeiros José Bo..." interrompida por um grito pirralhal:
– MAMA! O Thuthu pegou meu Power Ranger!
TOKTOKTOK (Thadeu esmurrando a porta)
– MAMA, ABRE A PORTA!
Escuto a voz de Thuthu em seus récem completados 2 aninhos tentando se defender:
– Mama, maiê (meine= meu) "bow-râââ", MAIÊ, MAIÊ!
TOKTOKTOK.
Abro a porta. Eles entram em disparada.
– Das ist meine Mama! (Esta é a minha mãe!) Thadeuzinho com a habilidade de espertos 5 anos, se agarra no meu pescoço.
Thuthu abre o berreiro:
– MAIÊ MAMA, MAIÊ MAMA!
Avança em cima de Thadeu com unhas e dentes. Consigo apartar os dois e ofereço uma perna pra cada um sentar. Eles se acalmam. Silêncio. Thadeu respira fundo, franze todos os músculos da cara e solta um gemido: iiiiihhhh. Thuthuzinho como sempre repete tudo o que o irmão faz: "iiiihhhhh".
Guri grande: – Deixa eu ver, mama?
Guri pequeno: – Mama, Thuthu êêr?
– Não, meninos, vão lá com papa, ele tá sozinho...
PRRRUMMMMBURUMMMBBUURRRUMBUM: Barulho de metralhadora.
Os dois caem na gargalhada. Meus óculos tortos na cara, o jornal amarrotado e pisado no chão.
– Agora deixa eu ver, mama.
Thadeu coloca uma mão nas minhas costas e me puxa com toda a força para eu levantar. Ththu faz o mesmo do outro lado mas com seus poucos aninhos desajeitados vai muito fundo na tarefa sujando a mão. Eu levanto como de uma mesa de operação, ainda em estado narcótico, catando papel, afastando criança, tire esta mão suja daqui! cadê meus óculos?
Thadeuzinho olha lá pra dentro e fala:
– Uau! Bonitão, mama!
Thuthu também olha e aponta com o dedinho sujo:
– Mama, Kaka iiino! (=cocô lindo!)

E-mail do Zé

Aconteceu de verdade na rádio TUPI FM 104,1 em São Paulo:

Locutor: - Quem fala?
Ouvinte: - É o Vicente.
Locutor: - De onde, Vicente?
Ouvinte: - Lapa!
Locutor: - Olha aí, Vicente da Lapa! Valendo o kit com camiseta e CD do Edson e Hudson. Presta atenção! Qual é o país que tem duas sílabas e se come a metade? Prestou bem atenção? Há um país com 2 sílabas e 1 delas é muito bom para se comer. Dez segundos para responder.
Ouvinte: - CUBA!
Locutor: (mudo por alguns segundos e algumas risadas no fundo) -
Tá certo, senhor Vicente! Vai levar o prêmio pela criatividade. Mas aqui na minha ficha estava escrito JAPÃO...

Sábado, Janeiro 27, 2007

Short Cuts

Thadeuzinho conseguiu a vaga na escola! Leia aqui a Odisséia da vaga Fomos lá para fazer o exame médico e depois de terminado, ele pergunta ao médico: "Doutor, você me dá dever de casa?" O médico respondeu que não podia mas se ele quisesse poderia perguntar ao "Herr Direktor" (Senhor Diretor) na outra sala...Thadeuzinho saiu em disparada e quando cheguei ele já estava com uma mão na cintura e a outra com a palma da mão pra cima encarando o "Herr Direktor" que abismado disse nunca ter passado por isto. Fiquei sem graça: "Como assim, Herr Direktor?" tentando adivinhar o quê e como o guri falou com ele. "É a primeira vez que uma criança me pede deveres de casa para fazer!" e sorriu colocando na palma da mão de Thadeu um livrinho colorido de exercícios. Eu também sorri aliviada......


**********
Fiz um bolo de Mohn (semente de papoula) e juro que Mohn sempre me deixa meio drog. Explico: Da papoula somniferum é de onde se obtém o ópio. Também desta espécie é extraída a morfina e a codeína. Tudo bem que nao deve ser o mesmo tipo de semente que a gente compra aos quilos no Billa (supermercado) mas que me dá uma onda, dá! Maridão diz que eu exagero mas verdade é que as crianças dormiram direto, eu também.
Maridão gostou muito e comentou:
– Perfeito, parece até "um austríaca que fazeu!" Você virou um austríaca mesmo!
– Amorzinho, sinto te decepcionar mas sabe esta geleiazinha aqui no meio do bolo?
– Sim, é da abricota, né?
– Não, fofinho, é de maracujá.
– Ah, bem que senti tava diferente a gosto...
– Sabes o que isto significa então? – Cheguei perto do ouvido dele e falei sussurrando com malícia na voz – Significa que o bolo é austríaco mas o recheio continua brasileiro, Schatz! (querido)

Quarta-feira, Janeiro 24, 2007

Cap. 24_ Rugas, cabelos brancos e declinados

No Guichê de Informações da Volkshochschule (Escola profissionalizante) folheando o programa á procura de um curso de alemão:
Atem und Stimme - Mut zum eigenen Ton
Não preciso, isso eu tenho até demais. Berrar é comigo mesmo!
Ab morgen nehme Ich ab! (A partir de amanhã emagreço!)
Só se for comendo Manner Schnitten e tomando Budweiser (Cerveja)...
Konfliktmanagement (Admnistrando conflitos)
Aprende-se a apartar briga de pirralho?
Freie Malerei (Pintura livre)
Não obrigada, já tenho dois "freie" pintores lá em casa!
NLP Resonanztraining mit Pferden
Wie bitte? Cuméquié? Programação Neurolinguística com cavalos?
"Aprende-se com a sabedoria dos cavalos a superar situações difíceis na vida..." Bom, o dia que eu enlouquecer e injeção na testa não fizer mais efeito eu tento isto, por enquanto não...
Erfinden Sie sich neu! (Invente-se de novo!)
Olha, até que não é uma má idéia...Mas já faço isto todo dia...
Irgendwie sind Sie nicht ganz glücklich mit Ihrem Leben? É...Mais ou menos... Irgendetwas scheint zu fehlen? Talvez...Sei lá na verdade!
...dann sind Sie in diesem Kurs richtig. Peraí, Hare Khrisna e Assembléia de Deus fala a mesma coisa e com eles não tem Kursgebühr (taxa de curso)...
Effizient mit seiner Umwelt kommunizieren!
Acho que este seria bom pois digo e repito todo dia de manhã pra Thadeuzinho: colocar a roupa, tomar café da manhã e escovar os dentes e ele entende: brincar, folhear pato Donald e comer chocolate!
Happy Bauch
Quem disse que a barriga fica feliz? Se ela falasse iria com certeza xingar durante a aula inteirinha
Bollywood Dancing
Aprender aquelas coreografias cafonérrimas? Nem morta!
Möbelrestaurieren (Restauração de móveis)
Isto seria ótimo por quê tá tudo caindo aos pedaços lá em casa
Achei! Era isto que eu estava procurando: Alemão para estrangeiros
Sicheres Deutsch (Alemão firme)
Sentiu firmeza?
Deutsch Nonstop (Alemão sem parar)
Até um berrar: num tô podendo mais!
Deutsch perfekt (Alemão perfeito)
Não peço tanto mas...
A atendente já impaciente, interrompe meus confusos pensamentos:
– Bitteschön? (Pois não?)
– Eh...eh..Vocês tem Deutschreparieren? (Restauração do Alemão)
Ela me faz um meio sorriso tipo "que-piadinha-boba".
– Como assim?
– É por quê eu já moro aqui há muito tempo e sei falar a língua mas como a senhora pode perceber, meu alemão é muito kaputt (quebrado)...
– Há quanto tempo você mora na Áustria?
– Ah, já perdí as contas. Mais de 10...
– Meses?
– Anos!
– Tski, tski, tski, complicado...
– É, também acho a língua alemã complic...
– Não a língua, o teu caso é complicado...
Gostaria de contár-lhe -pra dar um clima mais entspannt (agradável) á conversa- quantos cabelos brancos e rugas de expressões já adquirí por causa destas benditas declinações mas depois de ouvir tanto troço declinando errado, ela seria com certeza capaz de me mandar para o mobral austríaco!
– Hum, Deutsch II não é, VI? Também não tá pra tanto...Qual é a tua profissão mesmo? Artista gráfica? Ah, tem cada curso de desenho maravilhoso, olha este aqui: "Como pintar natureza morta"...
A esta altura resolvi interromper a conversa. Agradeci a atenção enquanto colocava o programa dos cursos na bolsa prometendo pensar com calma sobre o "teu caso", digo sobre o meu curso. Fui embora frustada, arrasada com raiva da língua (die Sprache, der Sprache, Das Sprache?) com a raiva na língua, com o raio da língua, ou com ous raios... que o parta.
Chegando em casa, lí a carta de tia Mariinha:

"Minha querida sobrinha Lina
Quanto tempo nao recebia uma carta de verdade escrita á mão! Que lindo! E as fotos maravilhosas que dão pra pegar, sentir...tão diferente do que ver no computador. Enfim, amei!
Você sabe, sua tia sempre deu tanto valor á lingua bem escrita e falada, portanto querida, nao fique chateada mas preciso fazer algumas correções no teu português:
1) Por mais magra que estejas: "Kilo" se escreve com qu (Quilo), e amamos o "Kalendário", digo calendário.
2) Teoréticamente nem na teoria! Correto é teóricamente. (Sua tia esperta já deduz então que em alemão é theoretisch, acertei?)
3) A receita do empadão deve ser uma delícia, o dia que eu descobrir o que é Basilicão e Coriandão eu faço (seria talvez mangericão e coentro?).
4) Quanta honra a sua mas "Tia" se não for no início da frase, escreve-se "tia" tanto quanto todos os substantivos em português que não sejam nomes próprios: "filhos" por mais que sejam grandes sempre se escreve em minúsculo. Assim como inverno, frio, neve, casa, berros, mãe, nervos, crianças, paciência, louca, briga, irmãos, bagunça, histérica e etc.
Fico por aqui te desejando um inverno bem quentinho e tempo para você ler um pouquinho mais em português, de preferência os clássicos (com "c"!) que a tia tanto gostava de te emprestar. Machado de Assis, José de Alencar... E para os meninos já encomendei Monteiro Lobato (você leva da próxima vez).
Um abraço grande, muitos beijos.
Saudades,
tia Mariinha."

Minha auto-estima que já estava lá embaixo, desceu mais ainda. Peguei o Thadeuzinho no Jardim de Infância e ele reforçou o astral-crise:
– "Mamáe", você pode para mim este brinquedo na mochila colocar? (...) O Mário levou um tombo e tá com o joelho "blutando"! (bluten= sangrando).
Assim não dá! Acordei no dia seguinte decidida, botei meus cuturnos de neve pra dar firmeza no andar e no espírito, café pra esquentar os ossos e clarear a mente. Strassenbahn (Bondinho), metrô, vento na cara e encarei de novo a Frau (dona) da Sekretariat, digo Secretaria (minús- ou maiúsculo?). Ela fez aquela cara de "ih-lá-vem-a-pirúa-doida-de-novo":
– "Bitteschön! Qual curso a senhora vai querer fazer? Alemão? Pintura? Temos também este aqui: Desenhando Mosaicos...
– Não, não...wissen Sie... (Sabe o que é...) eu pensei bem e decidí algo bem melhor. Vocês tem Português para estrangeiros?

Obs.: Se alguém se interessar em fazer alguns destes cursos, estes e muitos outros estão aqui

Quinta-feira, Janeiro 18, 2007

Eu e eles


Traduzindo: "todos nós" e "só eu". Explicando: A caixinha da direita só é utilizada pelo sexo feminino. A caixinha da esquerda é mais uma invenção fantástica européia. Na falta de bidê, chuveirinho ou até mesmo um banho, usa-se estes papéis supermacios e umedecidos para limpar as "tais" partes.
Hoje acabou o "wir alle". Thadeuzinho nem piscou, atacou de "nur ich". Abriu a porta e berrou: "Mama, este papel da outra caixinha é muito ruim!" E veio correndo me mostrar o absolvente higiênico todo marrom...

Segunda-feira, Janeiro 08, 2007

Saca o bigodinho...

E isto aqui é para as bibas queridas. Saca o bigodinho! Dá de 10 em Michael Jackson! E ainda lembra aquele amigo do peito de Pádua
Rhythm of the Night by DeBarge


e pra ver na academia...
OkGo Dance

Segunda-feira, Janeiro 01, 2007

Cap. 23_ Saunódromo!

Um casal de conhecidos da minha família veio visitar Viena. Depois de ter dado uma "relaunch" na mala deles, conseguimos sair para passear sem que eles quisessem voltar para o hotel depois de 10 minutos. Dá pra entender. Eu também sofri até aprender a me agasalhar, entender a diferença de 1 grau com sol, sem vento (dá pra aguentar sem luva), sem sol (bota aquela de lã e vai fundo!), com vento (luva de couro e punhos fechados!), sem vento com neve (impermeável acolchoada– ótima pra fazer gerra de neve) e descendo pra negativo (o jeito é botar a de pele de carneiro e ter fé em Deus!)
E imagino alguém agora no Rio de Janeiro com 40 graus, derretendo de calor, fazendo uma mala pra viajar pra Europa. Qualquer casaquinho de lã parece o suficiente pra aguentar a Sibéria!
Daí chegando aqui Suzana percebe que aquela botinha fofa de camurça comprada na liquidação da Arezzo esquenta tanto quanto uma Havaiana na neve! Aquele casaco de Couro que Rômulo usou só uma vez no festival do vinho em Friburgo e achou super-quente, em Viena parece que acabou o efeito. Ela fica gostosíssima com aquela calça jeans bem arroxada da Forum mas não há espaço pra colocar uma meia microfaser por baixo sem a qual a bunda congela. E falar em bunda, Suzana me mostrou toda orgulhosa o desenho da sua fantasia de carnaval, explicou todos os detalhes:
– Aqui nos tornozelos, no pescoço e nos pulsos, braceletes bordados de paetê. Na cabeça um enorme enfeite de plumas e penas de pavão, nas costas também um enorme arranjo...
– Lindo, Suzana, um arrazo! E no corpo o quê tem?
Ela ficou sem saber o que responder e de repente seu rosto se iluminou:
– Purpurina! Só um pouquinho aqui e aqui – Suzana apalpou com a ponta dos dedos sua púbis marcada pela calça apertada e seus seios duros de silicone. Tenho até um pacotinho aqui na bolsa, já vem com uma cola especial. Olha como são lindas!
– Sei, sei. Mas Suzana, nem um paninho, um biquininho?
– Nããããooo! Tá louca? Pra estragar tudo?! Já tô com tudo em cima: Silicone, Lipo, malhando todo dia...– Enquanto falava, ela passava a mão no corpo cheio de roupa, mostrando os lugares "com tudo em cima".
Rômulo que era do tipo caladão, sorria orgulhoso da mulher. Ela realmente é uma morena que não deixa nada a perder para Juliana Paes.
Emprestei para a Suzana colocar por cima do casaquinho de lã, um Daunenjacke (Casaco de Penugem) e um bom sapato forrado de sola grossa. Rômulo coube num casaco de pele de carneiro do Maridão mais as botas de neve e fomos á luta. No mesmo dia liquidamos Stephansdom, Belvedere, Mariahilferstrasse e ainda demos uma passadinha no Naschmarkt aproveitando pra tomar um café do lado de fora das novas varandas aquecidas. Experiência interessante: a cara fica vermelha e os pés congelam por que as lâmpadas de aquecimento ficam penduradas no toldo da varanda.
Entre um melanginho (café com leite) e outro, contei para eles sobre as saunas maravilhosas que existem aqui. Banho turco, cabine de eucalipto, piscinas aquecidas, banheiras com hidromassagem, um SPA total. Eles ficaram interessados em conhecer só pra sentir de novo uma gotinha de suor escorrendo pela testa...Rômulo chegou xingando o calor carioca e depois de 3 dias já suspirava de saudades lembrando do asfalto derretido grudando no sapato e sonhava em poder sair do banho frio já suando de calor!
No dia seguinte, peguei eles no Hotel e achei bom prepará-los para a empreitada – Austríaco adora ficar observando os outros e quando eles sentem que você não é do pedaço, dependendo do humor, eles podem dar uma de pedagogos com você ou então soltar aquele dialetão rude e dar ordens. Então pra evitar micos, vou explicar algumas coisinhas para vocês:1) Antes de entrar na Sauna, tem que tomar uma ducha. 2) Em cima da entrada da porta da sauna, tem uma luzinha, se tiver vermelha, não entrem por quê serão vaiados e depenados. 3) Uma vez dentro da sauna, pelo mesmo motivo, se quiserem sair com vida, só saiam com a luz verde. 4) Quando alguém levantar e começar a fazer movimentos com uma toalha branca, vindo pra cima de você e quase dando uma rabanada na tua cara com a toalha, não se assuste! Daí, se todo mundo começar a gemer de prazer e se depois deste espetáculo, todo mundo bater palmas, não riem! Este é tipo o "momento da óstia" para eles e nem em pensamento queiram no meio deste show, abrir a porta para sair, suas chances de sobrevivência são mínimas, mesmo derretendo de calor, aguentem firme. É o famoso Aufguss (infusão), joga-se água em cima das pedras do forno para aumentar a umidade da sauna, sua-se mais rápido e os movimentos com a toalha é para espalhar a umidade que fica concentrada no teto.
Achei que tinha esclarecido os pontos importantes. Chegando lá, para a troca de roupas mostrei-lhes o caminho para a cabine familiar e eu fui para a ala de cabine simples. Nos encontramos na ante-sala das saunas.
Eu dei um grito. Ela deu um berro. Ele deu uma gargalhada!
Eu – O quê vocês estão fazendo "vestidos"?
Ela – E o quê você está fazendo pelada?
Ele – Você chama de "vestidos" este micro-biquini da minha mulher e a minha sunguinha quatro palmos?
E agora? Como explicar pra estes cariocas que é extremamente proibido entrar vestido na sauna...
– Gente, olhem ao redor, tá todo mundo pelado!
Eles cochichavam um com o outro dando riadinhas maliciosas – Olha o pirú daquele ali! – Olha a pombona daquela lá! Hihihi...
Eu morrendo de vergonha – Comportem-se, o Bademeister (Mestre do banho) está vindo na nossa direção..
– Grüss Gott! Sie durfen keine Badesache anhaben!
– Ele tá falando que tem que ficar pelado, gente!
– Então fala pra este mané aí que a minha mulher só fica pelada na minha frente e na frente de mais ninguém!
Eu (em alemão): – Sabe o que é, seu Bademeister, é que, é...é que a religião deles não permite.
– Es tut mir leid, das sind die Regeln. So dürfen Sie die Sauna nicht verwenden. Sie müssen den Raum verlassen. (Sinto muito, assim vocês não podem entrar. Então retirem-se do ambiente.)
Traduzi e Rômulo ficou enfurecido – Suzana, eu vou embora! Vou tomar uma daquelas cervejas deliciosas ali no pub da esquina. Lá tem TV e tá passando futebol. Muito melhor do que olhar este bando de manés pelancudos...se você quiser ficar, tudo bem mas COM biquini. Se vira aí com a Lina!
Eu também fiquei furiosa e abri a boca pra falar que mané era ele de achar lindo a mulher "a la natura" na avenida pra sambódromo inteiro e milhões de espectadores da Globo mas pra meia dúzia de inocentes branquelos pelancudos não pode! Que preconceito! Mas ele já tinha ido embora. Suzana argumentou por ele:
– Aaah, caaara! Mas no Sambódromo é diferente, é outro astral...
Eu pelada de braços cruzados – Sei, sei...
O Bademeister irritado de braços cruzados – Was ist dann? (E aí?)
Tentei convencer Suzana a tirar aqueles centímetros de pano, decisivos para a nossa aceitação no local – Suzana você poderia...– ela me interrompe.
– Nããããooo! Tá louca? De jeito nenhum!
Ai meu Deus, e agora? Além de não poder entrar, ainda vamos ter que bater mais boca na portaria por que eu vou querer minha grana de volta...e este Bademeister tá ficando impaciente e eu tô com frio, doida pra entrar no quentinho...De repente, clareou – Tive uma idéia! Tá tudo resolvido! Suzana, pegue aquele pacotinho de purpurina na tua bolsa...– fui interrompida:
– Mas, Lina, você não está...– interrompi:
– Fica tranquila, é só um pouquinho aqui e aqui – Apalpei com a ponta dos dedos minha púbis desnuda e meus seios duros de frio.

Segunda-feira, Dezembro 25, 2006

Feliz...

Sábado, Dezembro 16, 2006

Cap. 22_ A Conterrânea

Fomos conhecer uma conterrânea de Nickity City que também mora em Viena. Ela sugeriu que nos encontrássemos num novo restaurante que segundo ela é super interessante por que você mesmo pode escolher como arrumar o teu prato...ih, achei meio furada, nao sou fã desses lugares que a gente tem que pagar pra trabalhar. Em algumas Gasthaus (Restaurante austríaco) eles vêm com uma xícara de metal com a tua sopa dentro e você-burro(a) tem que tirar da xícara e colocar no prato fundo, deixam aquele pão preto duro feito cimento pra você-mané cortar e em restaurante japonês ao invés de uma toalha branca com um vaso de flores, ou um bom vinho, no centro da mesa tem uma chapa dessas para churrasco, o garçon traz aqueles pedaços de peixe cru, broto de soja, ovo, legumes cortados e você-otário(a) tem que se virar pra fazer tua comida e ainda por cima pagar um dinheirão! Mas ela disse que seria um lugar ideal para se encontrar com crianças por que era muito espaçoso e o ambiente bem descontraído. Então se é para o bem dos pimpolhos, vamos nessa por que já tô curiosa.
Para minha surpresa, conheci uma mulher calma, educada, super doce e tranquila. Ela tentando puxar papo com pinto: "Thadeu, eu ouvi dizer que você fala português, é verdade?" Thadeu schweigt (calado) "È por que eu só gosto de falar português, você fala comigo português?" Thadeu schweigt (calado) "Ué, ele é quietinho ou é tímido?" Thadeu schweigt (calado). O guri limitou-se a exibir a parte interna do lábio inferior, franzir as sombrancelhas e soltar um grrrr. Marina timidamente sorriu.
Trocamos informações sobre as odisséias do passado, a chegada em Viena, a adaptação, o aprendizado da língua, ou seja, como cada uma traçou o caminho das pedras. Ela chegou como au-pair, eu cheguei como modelo. Modelo numas né? por quê de tudo possível e imaginável para uma modelo gorda e um mercado dificílimo, para uma imigrante que não fala a língua nativa e não tem papéis, costumo dizer que 3 empregos eu NÃO fiz: vender drogas, rodar bolsinha e ser babá. Dos 2 primeiros por pura questão de princípios, do último me arrependo amargamente de não ter tido esta experiência antes de resolver ter filhos. Marina se descontraiu e abriu um largo sorriso.
Contei do restaurante mexicano que trabalhei no inicio. Mexia panelões de chili con carne e fritava sacos de 100 litros de tortila mas a gente se divertia. Éramos todos brasileiros, trabalhando sempre em dois, digo duas por que só tinha mulher e bicha, dá pra imaginar as besteiras que a gente falava... Na Guacamole (pasta mexicana de abacate), para cada abacate eu colocava dois dentes de alho mais limão, pimenta, bastante tabasco obrigando os fregueses a entornavam litros de Marguerita (bebida mexicana feita om tequila e suco de limão) pra acalmar o estômago que se assustava com tanto tempero. O proprietário- que também era bicha, apelidamos de a própriaotária- sorria satisfeito com a Umsatz (Lucro). Acabando o serviço, na falta de duscha, tomávamos "banhos" de algodão embebidos de leite de rosas no banheiro, bastante gel no cabelo e pimba pra noite mais animada da cidade: Soulseduction no Volksgarten, toda segunda de 1 da manha até ás 5, eu tinha encontro marcado com a pista de dança, eu e quase todos os clientes do restaurante que tinham acabado de se empanturrar com minhas tortilas, burritos e etc. No dia seguite acordava mais gorda, mais inchada, tomava um belo banho, botava um modelito caretinha e sai correndo pros Casting para desfile com as mãos que constantemente (e até hoje!) fediam a alho.....Marina ria.
Chegou o bolo com creme de chocolate que ela tinha pedido. Veio acompanhado dessas coisas de expremer o chantily. Ela apertava, apertava e nada de sair o tal do creme. Thadeuzinho vendo a cena, finalmente resolveu abrir a boca, falando em alemão, sugeriu: "Olha, eu vou cantar pra você uma música que a gente sempre canta para o Thuthu quando ele senta no penico, é assim (cantando alto em português): "Sai cocôzinho, sai, sai cocôzinho danado, sai, sai, cocôzinho!" Morri de vergonha, nem conheçia a mulher...Ela achou tanta graça que sem perceber apertou o troço com força e saiu uma montanha de creme. "Viu como funciona!" Ele completou continuando a falar português em altos decibéis: "Que cocôzinho lindo! parabéns!". Superei minha vergonha e as bochechas quentes e tentei freiá-lo: "Meu filho, não é assim que a gente fala..." "Como não? Você sempre fala isso quando vê meu cocô e ainda chama Papa pra mostrar..." e virando- se para ela "Viu como eu sei falar português?" Marina caiu na gargalhada.

8 gavetinhas até o natal!

Agora eu cheguei para arrasar! Tomando conta de tudo! Invadindo o humor, a pele, os ossos, a alma dos seres vivos! Adeus verão, primavera, outono, cheguei para ficar, como nos últimos tempos, por tempo indeterminado. Talvez até abril, ou quem sabe maio, ou melhor ainda como no ano passado que eu deitei e rolei até o dia de começar a copa do mundo, em meados de junho, quando estava todo mundo pedindo arrego, eu abri espaço direto para o meu amigo verão e adiei assim a primavera para setembro, empurrando pra frente o outono que durou até ontem! Mas agora basta! Eu, o inverno estou aqui de novo de braços abertos e gelado como sempre pra receber vocês, seres humanos doidos que resolveram morar aqui do lado de cima do equador! Ontem Thadeuzinho, como ás vezes costuma fazer quando não lhe é dado a atenção desejada, numa ação de "Aktionismus" espontãnea, riscou de hidrocor vermelho a nossa cadeira chiquérrima de couro branca do Marcel Breuer. Maridão até ficou "cool", se abaixou e com um pano molhado, pôs-se a limpar o estrago. Eu quase subi pelas paredes por que adoro a cadeira. Reuni todas as minhas forças pra não dar uns cascudos no guri e bufando, contei até vinte (dez seria pouco!) Acabando a contagem, lancei minha sentença: "Amanhã, sábado, só terás televisão depois do almoço. Ponto final!"
Resultado: Hoje de 8 da manhã até ás 10.30, ouvi pelo menos umas 300 vezes "mama, eu quero ver televisão", perguntei outras 300: "por que você não pode?", resposta 300 vezes: "por que é o castigo por causa da cadeira!" Ele vendo que não tinha jeito resolveu mudar a estratégia: "Mama, eu estou zangado com você por que você não deixou ver televisão, eu vou te colocar de castigo: você não vai poder brincar no computador!" Opalá, agora ele me pegou. Tive que também mudar minha estratégia, empacotei todo mundo, pinto 1, pinto 2, pintão e fomos passear. Passear com menos um grau! Delícia, né? Eu acho maravilha! Me dá dó de vocês aí no Brasil suando, na praia, torrando no sol, tadinho de vocês...aqui é tão fresquinho, não precisamos nos preocupar com protetor solar, sombra, areia sujando a gente, ar-condicionado...ih, calor é muito complicado! O frio já acho bem mais simples, um casaco de daune(penugem) e pronto, me sinto em Itaquá! Porém só nos estritos respectivos pedaços que o casaco cobre, nem uma célula a mais!
Esquecendo o pequeno(!) detalhe da temperatura, esta época antes do Natal aqui em Viena é tão linda! A cidade fica toda decorada parecendo Sambódromo e os Adventsmärkte (mercados de natal) são tudo de bom para as crianças. Na frente da Karlsplatz, onde no verão é um lago, eles forram tudo de feno e colocam um presépio vivo com carneiro, ovelhas e ponys. Aqui alguns links:
http://www.weihnachtenseite.de/index.html?/wien.html,
http://de.wikipedia.org/wiki/Christkindlmarkt
Hoje fomos no Mercado do Belvedere que é mais feito para turistas. Tomamos Punsch quente e comemos Bauernpfanne que nada mais é do que o famoso mexido que dona Zilda faz mas a la austriaca: em vez de arroz com feijão, já sabe o que é né? Tirei as luvas para poder fazer as fotos e em dois minutos as pontas dos dedos começavam a congelar...
Não aguentamos o frio e maridão sugeriu de a gente olhar os trens na estação por que Thadeuzinho disse que nunca tinha viajado de trem (Êta guri moderno por que pra compensar de aviao ele tá calejado!) A Südbahnhof é uma estação antiga que lembra a DDR (Alemanha oriental). Dali partem os trens para os paises do leste (ex-cortina de ferro) e para a Itália. Agradável surpresa: Estava se preparando para partir uma locomotiva antiga movida á carvão. Mó fumaçada!
Para as crianças daqui, um dos rituais de preparação do Natal é o Adventskalender. Um calendário que começa no dia 1. e vai até o dia 24 de dezembro. Cada dia é uma janelinha que a criança pode abrir e ver o que tem dentro, uma figura, ou um chocolate, ou um presentinho. Oma (vovó) comprou um lindo caminhão de madeira e colocou em cada dia(gaveta) dois presentinhos. Mas como seguro morreu de velho, resolvemos colocar um durex nas janelinhas pra ficar mais dificil de abrir.
Está sendo um ótimo despertador para Thadeuzinho que adora dormir tarde e acordar tarde. De manhã, enquanto ele dorme e já passou das 8, chego perto do ouvido dele e falo: "Pintinho, caminhão!". Ele arranca as cobertas e num pulo está de pé! "Cadê, cadê? O que será que tem lá dentro hoje?" Sai correndo atrás do "calendário". Já tô aqui pensando no que eu vou arrumar pra acordar ele depois do dia 24!
Então: Feliz Natal!

Quinta-feira, Dezembro 07, 2006

Cap. 21_ Thadeuzinho vestibulando

Tudo bem que vivemos num sistema de igualdade social. Tudo bem que na Austria tem escola pública boa pra todo mundo.
Só que num país como este também tem as escolas públicas muito boas e escolas públicas não tão boas. E adivinha aonde eu quero que meu filho estude? Pois é, apesar de ele só iniciar a escola a partir de setembro de 2007 ou até 2008, é necessário como tudo aqui, meses e até anos de antecedência para conseguir as coisas!
Por sorte nossa, ouvimos de vários amigos que, pertinho aqui de casa existe uma escola que é super boa. Maridão foi lá em agosto obter informações e o diretor lhe deu um papel com dados e o "Tag der offene Tür" (Dia de visita para conhecer o estabelecimento) para o final de novembro. Fomos na tal visita, nós e a torcida do flamengo inteira, né? é lógico! A maioria era austríaco, fiquei pensando, onde estão os amiguinhos do jardim de infância do Thadi? onde estão os turcos e jugos com cambada de filhos que mora na nossa redondeza? ninguém presente! Muitos imigrantes quase não falam alemão e tendo pouco contato com os nativos, ficam sem saber o mapa da mina, ou nem tem tempo de cuidar destas coisas, os pais trabalham muito, enfim...
O auditório lotado de Mamas e Papas. O diretor entra todo poderoso e já diz de cara: "Não temos vaga para todo mundo! Mais da metade terá que procurar outra escola. Prioridade é: Moradores da redondeza e pai e mãe trabalhando ou mãe/pai que cria o(a) filho(a) sozinho(a) ou local de trabalho perto. Os moradores que são do 1. distrito, do Fasanviertel e etc., Es tut mir Leid (eu sinto muito), Aufwiedersehen (tchau!), casais com mãe ou pai que não trabalham, Tut mir Leid, Aufwiedersehen..etc
Eu me senti num Casting pra capa da Vogue italiana! "Queremos uma capa com morenas, portanto loiras e mulatas, sinto muito, Aufwiedersehen..." Mas a gente tinha boas cartas, os dois autônomos com local de trabalho e moradia a 2 quarteirões da escola, ficamos. Ele explicou que por ser uma escola de tempo integral (até as 15.30 h. integral?) só há vagas para os pais que trabalham e etc. e vários discurssos pedagógicos com termos difíceis e pensei de novo na meia dúzia de estrangeiros presentes se eles estariam entendendo estas formulações de alemão nível pós-doutorado...
Próximo passo, duas semanas depois: Uma reunião com pais e filhos em grupos pequenos. Thadeuzinho todo animado: "Escola de verdade, mãe? OBA!"  Chegamos lá, nos separamos, nós, os pais, tivemos que subir para a sala do diretor e Thadeu foi entregue nas mãos de, segundo eles, pedagogas, terapeutas e "especialistas" em avaliação de maturidade, personalidade e tudo o mais. "Ai meu Deus! " pensei, "isto não vai dar certo". Explico: acredito firmamente na capacidade motora e intelectual do meu filho mas também na capacidade fofocal do guri! Andar de ônibus com ele então é um circo! Entre uma parada e outra, ele já contou pra mulher que sentou na frente dele que a mama dele é brasileira mas "hoje não vai fazer comida por que tá de mau-humor...e por que você tem uma barriga tão grande? você tá grávida?" e o Thuthu tá fedendo e "mama não trocou a fralda dele", a gente mora na rua tal, "mama quando tá nervosa fala PQP, você sabe o que é PQP?" -ainda bem que ninguém sabe mesmo o que é!- "Eu também não sei mas mama diz que é muito feio e eu vou cantar uma música pra você, é assim: mas quem é este homem com a bola no pé? é o rei pelé..." o ônibus inteiro rindo por que ele adora falar alto, bem típico da familia Prathos. Com este guri, minha vida se torna um livro em aberto! Fiquei imaginado no que ele NÃO contaria para as "especialistas".
Numa mesa redonda, na presença do diretor, preenchemos eu e maridão  junto com 6 outros pais um formulário com nome, endereço, profissão etc. Nossos olhares se cruzavam, clima de insegurança no ar, inveja, rivalidade... Semifinal da Liga dos Campeões: Barcelona, Milão, Chelsea, Real Madrid. Quem levantará a taça?
Maridão sussurra no meu ouvido: "Lina, aquela mãe ali mora só a 1 quadra da escola..." eu quase gritando: "É Penalti!" ele me cutuca por debaixo da mesa: "Fala baixo! Eu querendo uma vaga para o nosso filho e você pensando em futebol agora!" Sussurrei de volta: "Desculpa. Schatz, em casa eu te explico..."
O diretor deixou bem claro que nesta escolha subjetiva de critérios, quem decide no final das contas é ele, então todos nós tentávamos de todo o jeito babar no ovo do cara, sendo educados, obedientes, se curvando e se desdobrando pra agradar ao rei da cocada pret...digo branca.
Pensei em puxar papo com o cara fazendo um dircurso sobre a arquitetura contemporânea do prédio e a influência de um ambiente agradável no rendimento escolar dos estudantes. Comecei a formular as frases na cabeça: Das Gebäude, Die Gebäude, Der Gebäude? ist schön, schöne? (a prédio? o prédio? "u" prédio é bonito, bonita, bonitus?) Desisti, se eu abrisse a boca e mostrasse para ele meu alemão kaputt (defeituoso!), ele com certeza perguntaria se a vaga era para o meu filho ou para mim! Fiquei caladinha. Detalhe: nesta segunda fase da seleção eu era a única estrangeira! 
Descobrimos que só há 9 vagas para uns 30 pretendentes. Então o que era um casting pra capa da Vogue, passou pelos campos de futebol e se transformou num vestibular para medicina na Uff.
Encerradas as formalidades, fomos todos, inclusive o diretor, ao encontro das crianças. Enquanto descíamos as escadas, Maridão fez com seu hoch deutsch (alemão brilhante) observações interessantes e elogios á escola. Eu me limitei a ficar do lado dele sorrindo e balançando a cabeça pra cima e pra baixo comentando com um :"É, também acho!" 
A porta é aberta e sai as crianças todas quietinhas, sorrindo direitinho em direção ao respectivo pai/mãe. Por último sai "Furacão 2000", cheio de papéis na mão, saltitando e berrando: "Mama, Papa, eu fiz exercício, acertei tudo, olha, olha...foi esta professora gordinha aqui que me deu!" espalhando os papéis no chão. Todo excitado, virou-se para a pedagoga, a própria gordinha que a esta altura estava roxa de vergonha: "Professora me dá mais exercício pra eu fazer em casa?" e de repente notou a presença do diretor no ambiente e olhou-o de cima abaixo, fez uma cara de desprezo, uma mão na cintura e  a outra mão com o dedo querendo alcançar a cara dele: "E você? Quem é você? É o porteiro daqui?"
Bom, vamos ver se a gente consegue a vaga.......

Segunda-feira, Dezembro 04, 2006

Cap. 20_ Curtindo a praia errada

– CHEGA! – disse Janete quase gritando comigo no telefone – Eu não aguento mais ver minha amiga sofrer por causa destes “@rschl0cher” (homens sacanas). Já marquei hoje mesmo um jantar com um amigo que quer te conhecer. Economista, chiquérrimo, queridinha! Bota um modelito maneiro, maquiagem pra tampar esta tristeza e esteja lá às 8!
Janete é o tipo da amiga que “não frequenta a mesma praia”, escutamos músicas diferentes, pensamos diferente, ela tem lá o gosto dela pra se vestir e eu tenho o meu. Ela frequenta bar de mauricinho e só tem amigo advogado, político, economista...enquanto  que eu ando com os artistas, fotógrafos, garçons e todos os vampiros da noite. Mas quando „tô no perrengue“ e ligo, ela sempre está disposta a me ajudar, seja no que for. E naquele momento, há uns quatorze anos e lá vai pedrada, ela estava ali tentando me levantar de mais um pé na bu~d@.
– Eu tenho certeza que dele você nunca vai ouvir estas abobrinhas tipo “eu gosto de você mas eu quero a minha Freiheit (liberdade)!”
Meu instinto me dizia que isto não iria dar certo mas como eu já estava de saco cheio de tomar sopa Maggi sozinha em casa e Weissgespritzer (Vinho branco com Soda) no mesmo barzinho de sempre, o estômago falou mais alto, me arrumei e fui.
O cara era realmente interessante, culto, cabelos grisalhos contrastando com as sombrancelhas negras, conversa agradável mas... simplesmente não era a minha praia!
Estávamos numa das melhores Gasthaus da cidade, pedi um Beuschel (Prato feito com miúdos de bezerro). Ele me olhou espantado:
– Você pediu mesmo isto? – ih, meu Deus, será que cometi alguma gafe?
– Pedi, por quê? É muito caro? – nervosa, peguei o cardápio da mão de Janete para ver o preço enquanto ela me dava um cutucão na canela com a sua botinha bico fino por debaixo da mesa.
– Não é nada disso, Eu acho ótimo, aliás, maravilhoso que você pediu isto! É por quê geralmente vocês mulheres não comem estas coisas, só querem coisas leves...sempre fazendo regime...
– Você não está me achando gorda, né? – mais um cutucão de Janete!
– Não, não! Você está ótima assim! Quer dizer que você gosta de Beuschel?
– Adoro! Com Knödel, é claro! (Bola de pão cozida feita com leite, cebolas refogadas, salsinha e ovo)...Me lembra o nosso Angú à Baiana...
– Ãú o quê?
– Angú! É um prato também feito com miúdos, blá, blá, blá... – foi uma noite animada, falamos muito sobre comida, até sobre comida para os orixás eu discurssei (com direito a mais um pontapé de Janete). Saí de lá com a barriga cheia e a canela roxa (Janete danada!)
Depois de alguns encontros ele me contou que uma vez se apaixonou por uma mulher e chamou-a para jantar num dos melhores restaurantes da cidade. Ela pediu apenas água mineral sem gás e salada de folhas verdes sem molho. A paixão se evaporou alí naquele momento do Bestellung (pedido). Depois do jantar ele disse que um dia ligava para ela e sumiu! Não podia suportar a ideia de viver com uma mulher que pede água mineral sem gás pra beber e salada de folhas verdes para comer.
– Eu te entendo muito, muito bem – e lhe contei meu caso com o gatinho que tinha pavor de alho. Rimos muito e ele gamou na gracinha tropical. Eu suspirei aliviada por ter encontrado alguém que além de gostar de alho, me dava a atenção que eu precisava, entendia tão bem de tantas coisas, tantos comes e bebes que eu nem sabia que existia.
Nosso namoro foi uma festa gastronômica durante meses. Eu como simples vendedora de boutique que mal ganhava para viver, tive a oportunidade de conhecer todos os melhores restaurantes e pratos e maitres da cidade. Até engordei na época. Ficava o dia inteiro sem comer direito e no final do expediente, botava um modelito da loja, ele me pegava de taxi e eu ia viver uma noite de cinderela.
Eu estava mesmo precisando conhecer um outro mundo, por que os amigos moderninhos iam sempre no mesmo bar, sempre as mesmas festas, sempre as mesmas caras cinzas de tanto cigarro! E este outro mundo era um mundo de glamour, conhecí políticos importantes, advogados, industriais e toda a chiqueria vienense, tudo isto muito bem regado de bons vinhos, champagne francesa, finos schnaps (cachaça artesanal).
Aprendi a tirar a espinha inteirinha de uma truta sem sujar as mãos, a espremer o limão sem usar os dedos. A tupiniquim que até então só sabia a diferença entre um queijo Minas e queijo Regina, aprendeu a distinguir entre um Gorgonzola e um Roquefort, a pedir a melhor Safra de Grüner Veltliner. Chardonnay para os peixes mas para Forelle um Riesling novo cai melhor. .. Patê de foie gras, spaguetti com montanha de truffas...Que mundo novo e delicioso eu conheci! Mas muita coisa me incomodava. Me incomodava como ele me tratava (“Baby”), como ele se vestia (só tinha duas opções: terno e gravata ou camiseta polo e mocassin), como ele pensava, como ele via o mundo. Enfim, a praia dele era outra. Eu não tenho nada contra quem frequenta Camboínhas mas minha praia é Itacoatiara e pronto! 
Aquilo tudo foi me enjoando, me enojando, as fofocas, as intrigas políticas, “Mais uma taça de Sauvignon Blanc, please”, as chantagens econômicas, “Baby, coloque um pouco mais de limão na sua ostra...”, a amante do presidente, “Você quer passar para o Eiswein, Baby?” Eu começava a entender o que era emancipação feminina e era com certeza muito diferente daquilo que eu estava vivendo. E tudo culminou neste banquete de ostras. Voltei para o meu quartinho e passei mal demais, vomitei toda a comida, todo aquele mundo, aqueles conceitos, os perfumes Channel, os falsos sorrisos, os ternos Hugo Boss, as loiras austríacas geladas, as piadas de mau gosto. Vomitei eu mesma para fora e foi a minha vez de falar CHEGA! Passei a noite toda pensando em como fazer o cara sumir da minha vida pois ele já estava bem apaixonado pelo buquê de flores exóticas e cores vibrantes que lhe caiu nas mãos.
Passaram-se alguns dias e ele me ligou para irmos jantar, desta vez era o Top dos Tops: Drei Husaren, the best in the city. Meu plano era infalível e eu repetia para mim mesma: “Lininha, fica firme, segura a onda”. O Cardápio oferecia de entrada creme de lagostas com manta de salmão ou alcachofra marinada e patê de figado de pato selvagem ou...eu pensava: Meu Deus, não vou suportar. Prato principal: Carneiro caramelizado com tâmaras ou língua com creme de maça e kren ou... Socorro! Ele interrompeu meus aflitos pensamentos :
– Já se decidiu, Baby?
Respirei fundo, juntei todas as minhas forças e falei decidida:
– Sim, já sei o que eu quero: uma água mineral sem gás e uma salada de folhas verdes sem molho!

Sexta-feira, Dezembro 01, 2006

Minhoca no MQ!

Fomos passear no Museumsquartier. Construido no sec. XVIII como Estabulo da familia real. O monumento barroco sobreviveu mal ou bem (pelo menos a fachada) a duas gerras. Demoraram 6 anos(!) discutindo sobre como utilizar o espaço de 60.000 metros quadrados no coração da cidade. O resultado saiu em 2001, apesar de várias críticas e intrigas, é um espaço com museus de arte moderna, contemporanea, museu para crianca, teatro para adolescente, teatro da dança, atelier para artistas, moda, lojas, livraria, restaurantes, cafés e no pátio interno muito espaço para os meus pintinhos correrem. Enfim, tudo de bom.

Passando pelo pátio do MQ, de repente Thadeuzinho grita:
-“Sai daí mamãe por quê a casa tá caindo!” E apontou para cima, puxando a gente na diração oposta. Tranqulizei o guri. -“Ah, me filho, isto não está caindo não! É uma escultura do Erwin Wurm...”
-”Quem? Wurm? (=Minhoca). Nossa, maaaãe, então ele tem minhoca no nome e na cabeça também, né?

E no meio deste mundo lindo e galmoroso, achei engraçado ver a bolsinha de chapinha de cerveja pendurada na loja chiquérrima do museu. Das favelas, ela deve ter passado pelas areias de Copacabana e, descoberta por algum artista, veio parar aqui em Viena. Ela reinava na frente de Livros sobre Matisse, passando por cima de Lomos, IDs e Visionaire. Tava toda orgulhosa, bonitona como se quisesse me dizer: “Nascí pobre, virei chique”

Anoiteceu e fomos tomar um Kinderpunsch nos quiosques que montaram no pátio. As construções parecem casas de Esquimó mas na verdade são feitos de módulos que no verão se transformam em grandes sofás espalhados pelo pátio.


Última foto: Lisi Gradnitzer
Pra quem quiser conhecer: Panorama do MQ
Site do MQ em espanhol

Sábado, Novembro 25, 2006

A Austrália é linda!


Coisas que você pode ouvir quando conta que mora na Áustria em Viena.

_Ah, sei, na Austrália, longe a beça, né? (Se vc quiser levar adiante a conversa, antes precisa checar se o sujeito é surdo ou se não comeu direito quando era criança)

-E as praias lá são bonitas? (Primeiro grau incompleto?)

-E como são as mulheres austriálicas? (Rapaiz! Nem te conto! É coisa do outro mundo!)

-E o carnaval lá é animado? (Se você tem certeza que ele(a) nunca aparecerá por estas bandas, aconselho uma resposta tipo: -O quê? Tu nem pode imaginar! Alí naquela praça principal da igreja do santo Estevês fica apilhado de gente! Uma roda de samba do lado da outra. Por que te digo uma coisa: Mole é ficar pelado(a) só com umas peninhas coladas "aqui e acolá" mas com 40 graus no ar! Aqui a galera fica nua com menos 10 graus! Tem pagode, axé... que Salvador que nada, carnaval de arrebentar é em Viena!...)

-Mas me diz sinceramente: austrialiano é muito difícil de aprender? a pronúncia, a gramática... (Olha, eu vou te falar sinceramente: Melhor você nem tentar! É dificílimo. Mas já o alemão é mais fácil...)

-E o Danúbio? É azul mesmo? (No meu Photoshop é azulsinho!)

Mas se prepare para tudo por que de repente um dia você ouve um:
-Heil Hittler!
Aí você responde com um humor orgulhoso e olhar de desprezo:
-A Áustria e a Alemanha são dois países diferentes!
Daí ele(a) dá o Xeque-Mate:
-Hittler era austríaco!
Fdp, este(a) sabe demais......Conselho austríaco: Passa batido.........fui!

Quarta-feira, Novembro 22, 2006

Cap.19_ Palpitações enlatadas


Fomos visitar a Tante (Tia) Anette á tarde. Ela quis saber:
-”Você gosta de...” E mexeu os dedos como se tivesse tocando piano com as palmas das mãos para cima, dedilhando alguma coisa. Olhei desconfiadíssima pra velha e duvidei das preferências sexuais dela. Será que ela quer...Ela continuou, interrompendo meus maldosos pensamentos:
-”...Apfelstrudel?”
-”Adoro!” (Alívio! Por que a gente sempre tá pensando naquilo?) “Compro sempre no Hofer (Supermercado) um já prontinho que é só botar no forno e...”
-”Pára, pára! Um Gottes willen!” (=pelo amor de Deus) Botou a mão na barriga, fazendo cara de nojo. “Ai, tá me dando enjôo, palpitações no coração e uma tonteira medonha! Isto tudo é porcaria, nojento, eu nunca seria capaz de comer uma coisa destas!
-”Tudo bem, tudo bem, quando eu tenho tempo, faço em casa, é só abrir o pacotinho de massa foleada e...
-”Ai, socorro, Jessas! (em dialeto vienês: Jesus). Me segura que eu vou ter um troço. Aquela massa horrível! Argh! Vem cá minha filha que eu vou te mostrar...
Forramos a mesa com toalha umedecida e de uma bolinha pequenininha de farinha com água, Tante foi abrindo e esticando, fazendo aquele dedilhado (que tembém serve pra outras coisas!) até a massa cobrir boa parte da mesa. É preciso, como para a outra “coisa”, cuidado e delicadeza, um certo jeitinho pra massa não furar, pra gente chegar “lá”. O recheio: maças picadas, um pouco de açúcar, farelo de pão torrado na manteiga, nozes picadinhas e uva-passa. Enrola a massa e leva no forno por uma meia-hora. Serve-se com açúcar de confeiteiro em cima. Rapaizzz, dá pra comer aos metros! Uma delícia.
Conversamos, brincamos com as crianças, o tempo passou e Tante anunciou que serviria uma sopa. Enquanto ela abria a lata de sopa de feijão (Argh!), perguntou se eu gostava daquela marca. Olhei pra lata com nojo e rapidamente fui catando os casacos, cachecols e a cria e respondí já na porta da rua: “Não, muito obrigada, Tante, tá na hora de a gente ir embora” Botei o mais novo no colo e o outro fui arrastando pelo braço. “Bussi, bussi!” (=beijinhos). Tante Anette ficou parada na porta sem entender nada: “Mas o quê aconteceu? Por que ir embora assim tão subitamente?” Respondí nervosamente enquanto batia firme o portão do jardim: “Desculpe, Tante, mas é que de repente me deu um enjôo, palpitações no coração e uma tonteira medonha!”

Terça-feira, Novembro 14, 2006

Cap. 18_ A adaptção de Thuthu

Mã austríaca tem mania de ficar 3 anos olhando para a cara do(a) filho(a). Acha que Creche é muito impessoal, babá é muito cara, a avó já tá muito velhinha e tia solteirona ela não tem. Além do mais o governo dá aquela mesadinha pra “segurar” a mãe em casa, é mais barato para eles do que criar empregos e creches. Eu fiquei 20 meses olhando pros escórnios do meu segundo filho e achei de muito bom tamanho. Juntando ao fato que a gente levava o irmão mais velho todo dia pro jardim de infância e o outro queria também ficar lá.
Mas no início não foi nada fácil. Thuthu teve um processo de adaptação bem peculiar. No primeiro dia, depois de apenas 1 hora, fui buscá-lo e a coordenadora me entregou o guri com o relatório oral de ocorrência:
-“Foi tudo ótimo, Senhora Mares, só na hora de trocar a fralda é que foi um sufoco, ele não fica quieto, quase não consegui...”
-“Ah, esquecí de dizer que pra trocar fralda, Thuthu só fica quieto se você canta parabéns pra ele...”
-“Ah, Alles klar! (=Tudo claro!). Então da próxima vez eu já sei...”
-“É que tem um detalhe...só se for cantado em português! Em alemão não funciona, o pai já tentou várias vezes...”
Sorte que Tante(=tia) Karin tinha um namorado português e Thuthu não se incomodou com o novo sotaque: “Pórrrabéins prrr vóce...”
Segundo dia, segundo relatório:
-”Deu certo, tirei a fralda suja, limpei ele mas na hora de fechar a fralda parece que acaba o efeito...”
-É que tem mais um detalhe: nesta hora você termina com: É BIG, É BIG, É BIG, É HORA, É HORA, RA-TI-BUM: THUTHUZINHO, THUTHUZINHO!” Enquanto cantava, eu arregalava os olhos e sem nem perceber me sacudia toda (´tá no sangue, ué!) e lhe assegurei: “É batata, ele fica quietinho.”
Ela me olhou com aquela cara de que paciência tem limite. Fiquei meio sem graça. mas fazer o quê?
Terceiro dia, cheguei um pouco mais cedo e pude observá-la de costas através da porta de vidro, como ela pegou rápido o espírito da coisa. Thuthu deitadão e ela lá toda fogosa: É big, é big...! Sacudindo o popô. Ela se virou com Thuthu no colo, toda sorridente e deu de cara comgo, seu rosto corou de vermelho-paprika!
Quarto dia, nova premiére: Thuthu fica pra almoçar. Relatório de Tante Brigitte: “Senhora Mares, hoje no almoço servimos Reisfleisch (Arroz com carne) e o Thúlio olhou a comida e começou a gritar: Ijäääuuu!, empurrou a comida, correu pra cozinha gritando ijöööuu ou sei lá o que é isto, jogou os talheres no chão e começou a chorar, não parava de falar: jijööaau...”
-”Feijão! Ele queria feijão!” Como explicar pra uma austríaca que é quase uma ofensa oferecer para um brasileiro arroz com carne sem feijão! Vexame! Calamidade! Coitado do Thuthuzinho!
Pensei rápido numa solução e combinei que traria vários potinhos de feijão congelado já prontinho, quando o menú for arroz, é só descongelar um potinho e pronto. Ufa! Ainda bem que não perdí meu jeitinho brasileiro.
Próximo passo: Thuthu fica até ás 15 horas. Relatório de Tante Elizabeth:
-“Não quis dormir de jeito nenhum, carreguei no colo, coisa que nunca faço, cantei,nada adiantou...”
-”Ai, meu Deus, é que ele só dorme embalado na rede!”
-”Re..o quê?”
-”Hängematte, aquela coisa que os índios usam como cama...pendura na parede...de pano...”- A mulher me olhava com descrédito e indignação. E agora? Como sair desta? Pensei rápido: -” Eu tenho uma lá em casa sobrando, acho que ficaria linda aqui neste canto...as outras crianças vão adorar...” A expressão de desprezo se transformou em revolta, aquilo estava indo longe demais. Com toda a educação e sem perder a pose, ela começou a me esculachar:
- “Senhora Mares, Não estamos na Amazônia, não somos índios e sim europeus civilizados!”
Eu já estava a ponto de, sem pose porrr@ nenhuma, avançar em cima dela pra defender os pobres tupiniquins destes branquelos imperialistas e exploradores do planeta. Mas fomos salvas pela diretora do jardim que passava por ali e quis saber o que estava acontecendo. Para a minha sorte, ela era da geração 68, galera multikulti, drogas, sexo e rock n’ roll e afins. Ficou encantada com a idéia da rede, dá um toque exótico no ambiente e tal. Tocou fundo o coração da Coroa que já deve ter arrastado muito pano nesta vida. Mandou instalar a rede no mesmo dia. Salva pelo gongo.
Passaram-se uns dias, fui buscar o Thuthu mais cedo e as crianças ainda dormiam. Inclusive a Tante Civilizada. E adivinha aonde? Pois é, entrei no aposento devagarinho, me aproximei da rede e pude vê-la com um semblante tranquilo, feliz...até babava a danada. Peguei Thuthu no colo e saí sem fazer barulho.
Rede instalada, feijão introduzido, RA-TI-BUM incorporado. Depois de 2 semanas suspirei aliviada. Foi um sucesso a adaptação do Thuthu na Creche, digo, A adaptação da Creche pro Thuthu.
Eu só não podia prever que a simbiose fosse tão boa. Um belo dia, a Tante Brigitte ao entregá-lo, me pede mais potinhos com feijão.
-”Mas como? Hoje mesmo de manhã eu trouxe 5!”
-”É...”-ela falava meio envergonhada- ”Sabe Senhora Mares, as outras crianças também gostaram tanto...” Deixou escapar um sorrisinho tímido, pequeno mesmo mas que mostrou um pouco dos dentes e revelou a farsa: o bafo bandeira de alho e uma casquinha de feijão presa no canino direito.
Thuthu: cara austríaca, alma brasileira

Quarta-feira, Novembro 08, 2006

Voce virou austriaco(a)?

Se você é brasileiro(a) e mora na Áustria, Você sente que virou austríaco quando:
_Você atende o telefone e ao invés de falar Alô, você fala o teu sobrenome: "Monteiro Pinto" ou "Souza Mattos" ou "Müller"...
_Na sua caderneta de telefone, os nomes estão organizados por sobrenome: Toledo, Melissa / Schneider, Peter / Marinho da Silva, Júlia etc. (E pensar que quando vc chegou era: "Melô do Pelô", "Pedro Larica", "Julinha Costão"...)
_ Você fica parado(a) no Sinal, morrendo de frio, esperando ele abrir para você, apesar de não haver nenhum veículo á vista.
_Você faz questão de bater o ticket do bondinho ás 23.30 da noite no inverno, no distrito 23. pra andar só uma estação!
_Um amigo(a) brasileiro(a) pede para acender o cigarro dele no teu e você: "Peraí que eu tenho fogo" e fica meia hora procurando o isqueiro dentro da bolsa (ou nos bolsos) mas nem pensa em dar teu cigarro pra acender!
_Um amigo(a) conta que conseguiu um emprego e a primeira pergunta que você faz é: "Vai ganhar quanto?"
_Ele(a) arrumou um apartamento e você: "Qual distrito? Quantos metros quadrados? Quanto custa?"
_Ele(a) conta que está namorando e você: "Ele(a) faz o quê?" (E pensar que antes era: Ele(a) trep@ bem?)
_Você vai até o fim do mundo pra jogar fora no "Depósito especial de lixo" as meia dúzias de baterias velhas, remédios fora do prazo de validade e meia xícara de óleo usado. (Pra isso voce usou teu carro e contribuiu pra aumentar a camada de ozônio...)
_Você separa vidros transparentes dos de cores, plásticos, aluminio e latas e joga tudo direitinho, cada qual no buraquinho certo mas comprou um carro á diesel por que, apesar de poluir mais, é mais barato!
_Você aprendeu a dançar fora do ritmo e todo desengonçado!
_Você aprendeu a ficar sério(a), calado(a) e quieto(a) nos lugares públicos. Principalmente no metrô.
_Você aprendeu a sorrir ao ar livre. Instruções: estique os lábios na horizontal até o ponto máximo que não te faça aparecer os dentes. Assim você não sente dor nos dentes nem na gengiva de frio!
_Teu(tua) filho(a) de 4 anos só leva "soca" na praia mas é uma fera nas pistas de esqui.
_Se você é homem: Já não se preocupa mais em cortar os cabelinhos da orelha, do nariz...e a barriguinha de cerveja embaixo de tanta roupa nem é notada...
_Se você é mulher: Depilação é Gillete GII e Manicure é passar uma lixinha rápida nas unhas. A celulite só é visível uma vez por ano de férias na Grécia, então o que os olhos não vêem...
_Na cama, na hora do "tchan" você grita: "Ô, ja! Ô, ja!" (=Oh, sim, sim!) ao invés de: "Tô goz@nd^0!"
_Você aprendeu a jantar como austríaco: Morrendo de fome, espera pacientemente, todos se sentarem na mesa para começar a tomar juntos aquele potinho de água quente chamado sopa, depois de meia hora, o segundo prato: carne de porco com chucrute ou algo semelhante, por cima de tudo isto: vinhos e queijos, depois de 5 horas sentado sem nem ir ao banheiro, só fumando e falando, vem a sobremesa: panqueca de chocolate, pra arredondar: Marillenschnaps (cachaça de abricó), pra estourar: Vanillenkipfel (biscotinhos de baunilha e nozes) com mais Schnaps...
_Nos lugares públicos: Você sempre tem um ouvido para o seu ouvinte e o outro pra ouvir o que o mané do lado está falando!
_Você tem uma gorda caderneta de poupança mas a tua conta bancária tá sempre no negativo.
_A tua praia agora se chama Kaffeehaus (Casa de café)
_Encontro de trabalho: Kaffeehaus
_Ficar 4 horas lendo jornais e revistas só com 1 melange: Kaffeehaus
_Rompimento de namoro, lavagem de roupa suja: Kaffeehaus
_Botar as fofocas em dia com um amigo(a): Kaffeehaus
_Se você é homem: Cumprimenta teu amigo com dois beijinhos no rosto sem nenhuma intenção homosexual. (E pensar que lá no Brasil você dava uns tapões nas costas do cara e berrava um: "Qual é, cumpadi?")
_Você não funga mais, ao invés disto, você aprendeu a peidar pelo nariz!
Você aprendeu a tomar banho sem se molhar: pega aquelas luvinhas de tecido atoalhado, umedece e passa nas partes íntimas do corpo, depois um perfuminho e tá ótimo!
_Você, quando tem que xingar alguém, ao invés de se descabelar e perder a pose aumentando o número de rugas na face, muito serenamente, você abre um sorriso ironico e diz com toda a suavidade na voz: "Leck mich am Ar##!" ("Lamba o meu c#!")
_Você fuma no mínimo 1 maço de cigarros por dia mas se recusa a comer fígado por que tem muitas toxinas...
_Na tua geladeira tem 3 tipos diferentes de presunto, 5 tipos diferentes de salsicha, mortadela, salami. Na dispensa tem meio quilo de batata murcha e pão preto.
_Se você é homem: Não coça mais o saco!
_Em novembro você está deprimido(a) e pensa em se matar por que não vai aguentar mais um inverno, no verão, quando o sol dá as caras, você acha a vida linda, tudo é maravilhoso mesmo estando desempregado(a), sem um puto no bolso e ele(a) ter acabado(a) de te dar um pé na bund@!
_Na páscoa você dá pro teu(tua) filho(a) de presente um monte de ovos de galinha cozido! (Coitadinho do(a) Guri(a))
_Você se sensibiliza com os favelados, os refugiados e os famintos que estão á 10 mil quilômetros de distância mas finge não ver o mendingo balkânico ajoelhado na calçada pedindo esmola.
_Você votou no Lula!

* * * *
Se você se identificou com 5 itens ou mais: Não se desespere, reserve já tua passagem pro Brasil e aguarde o próximo Post.
Se você não se identificou com nenhum item: Pô, como você consegue?

Domingo, Novembro 05, 2006

Outono

Foi um outono lindo, lindo...

Quinta-feira, Outubro 26, 2006

Adoro-Odeio, Brasil-Áustria

Por que odeio a Áustria:
1) O frio, 2) O frio, 3) O frio
Por que adoro a Áustria:
A Neve quando cai é linda. Um dia bonito com tudo coberto de neve fresca...
Odeio a Áustria:
Por que de manhã cedo a gente entra no metrô e quase desmaia com o fedor de salsicha!
Por que adoro o Brasil:
1) Itaquá, 2) Itaquá, 3) Itaquá
Odeio a Áustria:
Por que eu tenho que ligar, marcar dia e hora pra ver os amigos.
Adoro o Brasil:
“Oi, tava por aqui de bobeira e resolví dar um alô!”
Odeio o Brasil:
Por que eu ligo, marco, dia, hora e local pra encontrar e “neguinho” não aparece, não liga, nem dá satisfação, tá nem aí...
Odeio a Áustria:
Com minhas amigas austriacas falamos sobre relação sexual insatisfatória.
Adoro o Brasil:
Com as brasileiras falamos: “o cara não come direito, não mete legal....”
Odeio a Áustria:
Por que nao posso pedir pro motorista de ônibus pra abrir a porta enquanto o sinal está fechado apesar de estar à um passo da calçada!
Adoro a Áustria:
Por que em toda parada tem uma tabela informando a hora que o transporte vai passar e é batata: chega na hora mesmo! (Azar o teu que chegou 5 segundos atrasado(a), o motorista fecha a porta no teu nariz!)
Odeio a Áustria:
Por que posso acenar histericamente no meio da rua, gritar, jogar beijinhos, levantar a saia (como fazia Fernanda Young) que não adianta: o motorista só para no ponto!
Odeio a Áustria:
Por que quando o metrô está enchendo e sou obrigada a tocar uma parte humana alheia, é um mal estar tão grande que eles sentem... coisa esquisita.
Adoro o Brasil:
Todo mundo se gruda, se espreme, se sufoca no ônibus e ninguém se incomoda, aliás tem uns até que...fica para o item abaixo
Odeio o Brasil:
No ônibus espremido, o cara com a “barraca armada” roçando em você. Ninguém merece!
Odeio a Áustria:
Por que no metrô é um silêncio estrangulador e ao contrário da Inglaterra que todo mundo enfia a cara num livro, aqui eles ficam brincando de sério, olhando pro teu escórnio! "Daonde ela vem, o que ela faz, pq veio pra cá, olha como ela se porta..." Consigo ler todas estas dúvidas na cara deles enquanto me secam com o olhar! Òtima dica de Dora Flor: "I-Pod bem alto e olhe sempre para o teto!"
Adoro o Brasil:
No ônibus, a mulher que acabou de sentar do teu lado, te contou entre uma parada e outra que seu filho é "maconheiro", o marido tem amante, a filha já não é mais virgem e daí eu tento brincar de sério mas logo percebo que é impossivel!
Odeio a Áustria:
Quando entro na loja e vou á caça de alguém pra me atender, peço para provar a roupa da vitrine e ela me diz: "Sinto muito, não posso fazer isto!" "Mas você quer vender ou não?" Ela já virou de costas e me deixou falando sozinha.
Odeio o Brasil:
Quando tento entrar na loja, 3 vendedoras me disputam e a mais cara de pau ganha a briga: "Oi, tudo bem?" (Que pergunta mais íntima!) "Eu só..." "Como é o teu nome? Meu nome é Márcia! Olha que lindo chegou hoje!" "Eu não quer..." "Não faz teu estilo? Mas tá super na moda, vem cá, vou te mostrar mais.." (me segura pelo braço e me puxa pra dentro da loja) E eu só queria saber o número do prédio...
Adoro a Áustria:
Por que eu chego no banco e ao invés de ter uma fila quilométrica, tem o(a) atendente atrás do balcão com um sorriso me esperando! Parece que ele(a) fica ali o tempo todo esperando eu chegar!
Odeio o Brasil:
Em média 2 horas pra pagar uma conta de luz! (E quando chega a tua vez o cara diz que você tá na fila errada!)
Adoro a Áustria:
Por que quando eu ultrapasso meu limite bancário, o caixa automático continua enchendo a minha mão de euros! E a minha agencia bancária liga depois de semanas que estou no negativo, para, muito educadamente, perguntar se há previsão de melhoras financeiras!
Odeio a Áustria:
Por que eu quero que quando alguém me faz um favor é por que tá a fins de fazer, quando não tá a fins não faz, porr@! Peço para alguém me ajudara com o carrinho de bebê, por exemplo, e o cara ajuda de má vontade e de contra gosto. Seria mais verdadeiro ter dito não!
Odeio o Brasil:
Você pede muito educadamente para alguém te ajudar em algo e o mané fala na tua cara: "Tô afins não, brother!"
Adoro o Brasil:
Por que quando passo na frente de uma construção, minha auto-estima aumenta instantâneamente (“Gostosa! Lindeza! Mulherão!”) Quando vou num botequim: "Pois não, meu anjo!", Na padaria: "Que deseja, minha flor?"
Adoro o Brasil:
Por que posso tomar água de côco no calçadão da praia de Icaraí olhando uma das mais belas paisagens do Mundo.
Odeio o Brasil:
Por que enquanto um olho vê esta paisagem linda e maravilhosa, o outro tá olhando nervoso de um lado pro outro pra "sacar neguinho" e não dá mole pra mané!
Adoro a Áustria:
Por que posso andar de madrugada sozinha sem medo de ser assaltada, raptada, estuprada, assassinada...
Odeio a Áustria:
Por que todo mundo na rua tem cara emburrada! (Por que será? O sétimo país mais rico do mundo, não tem miséria, favelados, tudo funciona direitinho...que coisa esquisita)
Odeio a Áustria:
O pobre aqui é gordo e triste. (Generalizando, é claro. Mas quem mora aqui há de concordar comigo)
Adoro o Brasil:
O pobre é magro e feliz! (Também generalizando, é claro.)
Adoro a Áustria:
Por que não tem barata! (Copyright: Fernanda Nigro)
Adoro a Áustria:
Apfelstrudel, Topfenknödel com molho de frutas, Zwiebelrötbraten, Beuschel, Martinigans...
Adoro o Brasil:
Doce de banana, queijo minas, goiabada, feijão preto da tia Telma, Bacalhau...
Kalbsgulasch da Sogrinha versus Língua ensopada da dona Zilda
Kaiserschmarren do Maridão versus Quindim da tia Mirinha.
É, acho que encerrando com comida, acaba dando empate!

Sexta-feira, Outubro 13, 2006

Meu reino por um Bactrin

Estava morrendo de vontade de comer um mixto quente na chapa. Como fazer? Sem chapa e sem torradeira...improvisei uma chapa feita de um lado de uma tampa de panela e do outro, uma bandejinha de ferro que coloquei em cima da chama. Semmel (Pãozinho redondo branco), manteiga, presunto, queijo Gouda (o irmão rico do "Regina") e mandei brasa. Até que ficou bom, pra acompanhar um Nescau copo duplo. Fechei os olhos e pelo cheiro, dava até pra me imaginar na Padaria Colonial. Tem coisas que sinto falta do Brasil, aliás, muitas coisas. Mas pra não ficar no perrengue eu sempre trago muita goiabada, palmito, bananada, por que não dá pra me imaginar comprando1 quilo de guavas (goiaba) que aqui é caríssimo e ficar duas horas mexendo na panela. E da próxima vez que eu for trarei além da chapa, umas 10 caixas de antibiótico, tipo bactrin ou algo assim. Por que porr@a, faz 10 dias que estou gripada, fui no médico e ele diz que não há infecção, recomendou cama e estou nela há 10 dias e não melhoro! Agora é sexta á noite e a única médica que pude recorrer é a homeopata que me garantiu que se eu fizer o que ela recomendou, no domingo estou sarada. Deus te ouça! Mais um final de semana perdido. Ai que saudade das comodidades brasileiras: ligar para a farmácia e encomendar o que eu quiser e quanto eu quiser! "Quantas caixas a senhora deseja?"), entregam em meia hora sem quase acréscimo de despesa. Issso é que é luxo! Daí vem aqules socialistas defenderem que a saúde é para todos e regras tem que ser cumpridas, os hospitais estão abertos...mas sair de casa doente, quando ás vezes lá fora tá fazendo menos 20 e chegar lá e esperar em média uma hora, é desumano, oder? Já tivemos que fazer isto várias vezes com o Thadeuzinho bebê mas fazer o que? Não dá pra reclamar por que o sistema funciona. Uma hora chega o médico, examina, passa remédio que é quase de graça. Mas ás vezes me dá vontade de simplesmente fazer do jeitinho brasileiro, sabe? É rápido e nem sempre o mais saudável a longo prazo, no Brasil pintou dúvida, toma-se antibiótico. Pô, se eu chegar numa farmácia aqui e pedir um antibiótico sem receita médica, o cara liga na hora pro hospício: "Tem uma louca aqui querendo um antibiótico sem receita, traz o reboque, urgente!" ou algo do tipo.

Sexta-feira, Outubro 06, 2006

Cap. 17_ Thadeuzinho fez 5 anos!


Thadeuzinho fez 5 anos. Fizemos uma festinha pra ele aqui em casa. “Festinha?” os austríacos arregalaram os olhos. “15 crianças e você chama isto de festinha?” Ué, gente, fato é que não sabemos fazer esta coisa chata de austríaco que convida o numero de crianças conforme a idade: faz 5 anos, convida 5 amigos! No Brasil, em janeiro deste ano, só pra debochar desta regra fiz questão de fazer uma festança pra Thuthuzinho. Chamamos 50 pessoas, contratamos animação, encomendamos tudo pronto salgadinho, torta. Alugamos o playground do prédio de mamãe (meu Deus, por que na Europa não existe isto?) Tia Mirinha quis comemorar junto por que faz anos no mesmo dia. Enfeitinhos, Babá pra tomar conta do Thuthu, Música altíssima, só não foi Niterói inteiro por que caiu o maior toró de encher rua e nadar carros! Tivemos até tempo para filmar a festa, tomar cervejinha com os amigos que ao contrário daqui, nunca posso convidar por que tem pouco espaço e eu depois de três horas trabalhando como garçonete, animadora infantil, babá, anfitriã e empregada ao mesmo tempo, eu tô é morta de cansada! Além do mais desta vez só demos sugestões para a lista de convidados, Thadeu quis pessoalmente escolher quem viria.

Pedí para Maridão pintar um convite, artista é pra essas coisas, achei tão lindinho que encomendei também cartõezinhos para os saquinhos surpresas e ampliei na Copyshop vários cartazes com o motivo em A3 e espalhei pela casa, colei na porta de entrada...Há tanto tempo desempregada, entrei numa de levar a “Corporate Identity”(CI) da festa á sério. Já me imaginei na próxima entrevista para um novo emprego:
-“E qual foi o seu último trabalho, senhora Prathos?”
-“Eu fiz toda a CI para Thadeu Compania Ilimitada”
-”E que tipo de compania é esta?”
-“Ah, é uma compania que trabalha no eixo Rio-Viena...”
-“Sei, sei, importação, exportação...mas que tipo de mercadoria, que área ele atua?”
-“Diversas áreas, ás vezes como tradutor, ás vezes como intérprete de músicas ou atua muito bem na área de teatro imitando as pessoas, Também como construtor, faz esculturas lindissimas e simétricas, verdadeiras obras de arte arquitetônicas. È um empresário muito ativo, muito esperto e inteligente mas também muito levado, teimoso...”
-“Como assim?”
-“Eu queria dizer muito selbstbestimmt, sabe exatamente o que quer e por isso para mim é um grande desafio trabalhar com ele!”
É tudo pura verdade! Acho que eu ganharia na certa o emprego, hehehe
Mas como eu ia dizendo, a festinha (?) foi aquela loucura! O Buffet modestia á parte estava ótimo. Apesar das receitas de Dona Zilda via Embratel não serem assim tão confiáveis:
-“Ai você vai botando farinha...”.
-“Peraí mãe, tô escrevendo, quanto de farinha?”
-“Ah, você vai botando, vai vendo, vai sentindo...”.
-“Sentindo tipo o quê? 1 quilo?”.
-“Não ! Tá louca? Bota assim tipo meia xícara...”.
-“Xicara de café expresso, de café com leite ou de chá?”.
-“Ô, garota, deixa de frescura! Aqui em casa só tem um tamanho de xícara, aquela que eu tomo o meu café e é a mesma a 50 anos, lembrou? Posso continuar?...”
E por aí fomos até ela me dar todo o mapa da mina. Até que me saí bem, Torta de galinha e Bolo salgado, Uma torta de goiabada que ficou divina (Receita: Revista Cláudia, também a mesma há 50 anos!), para as crianças: cachorro quente com molho. As crianças austríacas torceram a cara! gostam de comer salsicha seca com pão! Ué, mas o aniversariante é metade brasileiro então não pode faltar certas coisas. Quem sabe no próximo ano eles já se acostumaram... Sogrinha também colaborou com a torta e profiteroles, E a única convidada brasileira trouxe brigadeiro (isto também não podia faltar) e este sim as crianças adoraram!
Ficamos eu e o pai super preocupados em como ocupar durante 3 horas 13 criancas (2 faltaram, g.a.d.!). Fizemos várias brincadeiras com música, com venda nos olhos e uma certa hora, Thadeu chega pra gente e fala: “Valeu, mama e papa, agora vocês deixam EU brincar com os meus convidados. Atenção, galera (tirou toda a roupa!): todo mundo correndo atrás de mim!” Vrum, vrum, a pirralhada adorou! Ainda bem que tem espaço aqui. As Mães pasmas com a confusão. “Agora vamos todo mundo pular na cama da mama!” A galerinha delirando! “Pula, pula, pula, pessoal, agora atenção: todo mundo deita na cama e agora um agarra o outro e beija! E agora...” As crianças entraram na onde dele e estavam se empolgando. “Pára com isso, meu filho!” “Ué, você sempre faz isso com o papa....” Senti minhas bochechas arderem: "Hahe, he...ham, pessoal, vamos pra sala cantar parabéns?"
P.S1:. Não sei por que as cores do convite nao sairam legais na tela. O original é bem mais bonito!
P.S.2: g.a.d = Graças a Deus

Segunda-feira, Outubro 02, 2006

Cap. 16_ O voto secreto de Thadeu


Ontem teve votação aqui e lá. Eu recebí mil correntes pro e contra Lula. Não passei nenhuma das duas opniões adiante. Não posso julgar uma realidade que não é minha. Aqui Lula é admirado e elogiado pela imprensa. É verdade que eu deveria ler mais jornais do Brasil na internet. Pô, eu até tento mas tudo parece uma novela que eu não entendo porr@ nenhuma, caixa 2, superfaturamento, nomes e nomes que depositou aqui e pegou lá. Troca-se de partido como se troca de roupa. Ligo para a minha mãe e ela me dá uma resposta muito simples que aliás é a mesma faz 20 anos: “São todos uns safados, corruptos, a situação está cada vez pior, uma violencia terrível, uam roubalheira só entre os políticos, está terrível! Está...” Afasto o fone do ouvido por que já conheco este discurso, a cada palavra ela vai aumentando os decibéis até gritar: “UM HORROR, MINHA FILHA, UM HORROR!” E eu continuo do outro lado da linha sem entender nada. Mas me permitindo fazer algumas comparações: Aqui também se rouba e muito! Só que não é com mala de dinheiro em hotel (que coisa mais primitiva!) È com negócios no Caribe através de ditos milionários com dinheiro do sindicato dos trabalhadores. O escândalo foi descoberto pouco antes das eleições e nem isto conseguiu impedir a vitória do partido socialista que é o dono do banco dos sindicatos e dono do dinheiro dos trabalhadores. Logo eles que levantam a bandeira da igualdade para todos... Meno male os socialistas do que os cristãos de centro que querem me ver com a barriga no fogão e fecham os olhos para direitos femininos, homosexuais, estrangeiros e tudo o que não seja a sagrada familia, igreja, latifundio e multinacionais. Os verdes conseguiram 10%, ótimo mas nem tanto por que os de extrema direita conseguiram 11%, ou seja este 1% de diferença que quer me ver longe daqui! Parola famosa deles: “Fora estrangeiros!” Mas em Viena e conforme diz o slogan da cidade: "Wien ist anders!" (Viena é diferente!) onde se concentra a fortaleza vermelha (42% para os socialistas), os verdes ficaram na frente com 17% contra os azuis (extrema direita) com 14%.
Uma outra diferença aqui é que os partidos são mais importantes do que os políticos. Muitos votam a vida inteira no mesmo partido. Se um político muda de partido, o que é muito raro, ele perde bastante credibilidade. O Sistema eleitoral é um bom reflexo disto: Você dá o voto para o partido, como segunda opção, pode escolher um vereador para o bairro aonde mora. o resto é o partido vencedor que decide quem será o primeiro ministro! Esquisito, né? E tem acima de tudo o Presidente que este sim é escolhido com voto direto mas não tem peso político, ele pode decretar estado de sítio ou fechar o parlamento mas não participa dos processos de decisão política. Ele fica só de fora, dando conselhos, viaja pelo mundo, recebe os chefes políticos aqui...parece mais um Papa, acima de tudo e todos mas que não muda porcaria nenhuma!
O pai levou Thadeu para votar. Tudo muito formal, Grüss Gott, Bitte schön, Seu nome, O papel, aquela cabine, por favor, coloque o envelope aqui na urna depois, muito obrigado, tudo muito correto, todos concentrados e muito sérios. Thadeu entrou junto na cabine. O pai com o envelope e o papel na mão aonde estava escrito bem grande o nome dos 7 partidos. Thadeuzinho olhando tudo, muito curioso: “O que é isso, papa?" (apontava o cartaz na parede) "Pra que isto?" (puxava a caneta amarrada num cordão). Ele falava em voz alta, como sempre. O pai enquanto fazia uma cruz no papel, foi logo querendo avisar: “ Meu filho o voto é secret.......” Thadeu olhando o papel onde estava o "x", interrompe aos berros: “Ah, essa letra eu conheço, é g de grünn (partido verde)!" O papa meio sem graça saiu da cabine e teve que encarar o olhar conspirativo de todas as pessoas presentes. Aquela cara austríaca cínica exprimindo um: "Eu sei uma coisa pessoal sua, hihihi". Ele colocou o envelope dentro da urna no centro da sala sobre o olhar de todos os controladores e funcionários presentes. Thadeuzinho se espichou para olhar dentro do buraco: "Papa, o que você falou comigo dentro da cabine?" O pai enfiou o envelope, respirou fundo e olhou para o pequeno: “Meu filho, eu falei que o voto é, digo, ERA secreto!” Sairam sem perceber os risos e a descontração total que causaram no local.

Sexta-feira, Setembro 29, 2006

Cap.15_ Deixa ele lá!


Quem quer entender isto, tem que primeiro ler isto: Cap.14_Deixa ela lá!
Temos um espelho na entrada do apartamento, lindo com uma prateleira embaixo (vide foto). Esta prateleira era de vidro negro que um belo dia quebrou (ninguém se machucou, g.a.d.). Já veio toda a problemática na minha cabeça: O que fazer? Eu já sem muita paciência para mais uma vez ter este tipo de dilema com Maridão, tentei ser doce mas franca e direta: “Querido, eu sugiro arrancar, jogar fora e comprar um novo! Afinal o espelho já está tão velhinho...descascado aqui...” Ele me interrompe: “Lina este espelho não é velho, ele é antigo!” Santa língua alemã pra me mostrar a semântica das coisas! Ele ao me ver pasma, tentou explicar melhor: “As coisas antigas tem caráter, personalidade!” E saiu pra trabalhar, me deixando sozinha na frente do espelho, ainda pasmada. De novo o pensamento: “Daqui á alguns anos quando você ficar assim, toda capengua, velha, feia, é capaz de ele não te jogar fora assim tão fácil....” aproveitei pra me olhar nos olhos: Tá vendo, escrôta, o que vai adiantar você fazer lipo, silo e etc se você não tiver caráter, personalidade? O que adianta os lindos seios, bundas e cia se você virar uma pentelha, chata? Lembrei de Verinha: “Acho que gente é como vinho que com o passar dos anos amadurece, encorpa e fica cada vez melhor ou então vira vinagre, azeda!” Toca o telefone e ponho Janete á par da situação: “Ô Lininha ingênua, já pensou no que você vai fazer quando ELE ficar careca e barrigudo? Eu sugiro jogar fora e arrumar um mais novo...Quaquaqua.” E soltou aquela gargalhada gostosa que só ela sabe dar! Valeu Janete, amiga é pra essas coisas! Mas meu Deus, nunca tinha pensado nisto, meu príncipe encantado ficar careca e barrigudo? O que farei? Nem por todo o dinheiro do mundo Maridão deitaria numa cama cirúrgica pra tirar a barriga... ou para implante de cabelos.... Pensando bem, ele tá mais pra virar um bom vinho do que azedar.....
Ele voltou do trabalho, se ajoelhou em frente ao espelho, mediu certinho o tamanho da prateleira, foi no marceneiro e encomendou a madeira linda e carésima exatamente no mesmo formato e contorno, encaixou e pronto, agora não quebra mais. Ficou lindo de novo. Lógico que os arranhados e descascados do espelho continuam lá mas... deixa ele lá!

Quarta-feira, Setembro 13, 2006

Cap. 14_ Deixa ela lá!

Eu não sou uma pessoa nem um pouco superticiosa, nem um pouco surrealista, juro de pés juntos! Tão pouco sou quanto um conhecido que uma vez me deu uma carona no Rio e comentou a barbeiragem do motorista ao lado: “Cê viu o mané?” E passou dois dedos na pele do seu braço: “Eu sabia! olha a cor, olha a cor dele!”. Fiz uma expressão de quem não estava entendendo. Ele foi mais claro: “Ele é preto e todo preto é barbeiro!” Fiquei boquiaberta, ele percebeu e explicou: “Eu não sou racista não mas é verdade: todo preto é barbeiro!” Não abri mais a minha boca, percebi que naquele nível de mentalidade não dá nem pra começar a argumentar. Então era aqui que eu queria chegar: Ele não se considera racista como eu tão pouco me considero superticiosa, surrealista, doida.....Enfim, vamos à história:
Marcela, tentando ser discreta, deixou para falar no último momento, quando já estavamos na porta pegando o taxi para o aeroporto: “Aqui tá o télefone di maínha, beijos na tia Rita, não deixem de ir à Praia do Forte, oh genti como eu queria tá junto pra mostrar procês, toma água de côco, cuidado com os caruru e os dendê...sabe dona Lina - me puxou pro canto da sala apontando o objeto em questão- em Salvador tem cada rede tão linda...” Senti minhas bochechas ficarem vermelha de vergonha. Afinal de contas todo mundo nota aquela capenguice no meio da casa...A rede tá lá caindo aos pedacos, pendurada no canto mais gostoso da casa, a gente deita pra pensar, pra relaxar, pra ninar o thulinho, pra namorar, ela é parte da familia. Mas tá toda capenga, o croche da borda todo arrebentado, manchas no pano, um horror! Isto era um assunto já arquivado na minha cabeça por que...bom, vou explicando: Chegando em Salvador, nos divertimos muito e rede tinha em todas as direções e lugares possíveis e impossíveis de se imaginar. Até na entrada do toilette tinha mané vendendo rede, impressionante! Mas deixei pro último momento, já no aeroporto, encontrei uma linda, amarela. “Vamos levar esta, amor?” ele com uma tristeza profunda no olhar: “Se você quer...leva”. Passei o cartão, pensando que em casa eu teria que continuar a comer o mingau pelas beiradas até conseguir trocar a velha pela nova. Voltamos e depois de ter dado tempo ao tempo, um belo dia depois da janta voltei ao assunto: Acho que vou pendurar a rede nova pq esta aqui está tão velhinha, tão feia...”. Desta vez ele nem conseguiu falar, a tristeza no rosto era tão grande que deu pena. Eu já estava preparada para este tipo de reação dele. Mudei de assunto, saí de fininho. Maridão é assim, se apega ás coisas, alguns artistas são assim, objetos não são apenas objetos, são também obras de arte, objetos tem memórias, emoções. Seja uma rede capenga, uma camiseta velha. Maridão não joga nada fora, ele tem ainda guardado seus jogos infantis que Thadeo irá herdar, Walkman que nunca mais será usado, coisas da avó dele e...ihhh, se eu continuar fico de mau humor. Minha vontade é fazer como a dona Zilda que, de tempos em tempos, saia pela casa feito furacão perguntando para tudo e todos: “Pra quê serve isto? (sem esperar resposta) pode jogar fora?” E também sem esperar resposta jogava fora mesmo. Bom, acordei decidida: “É hoje!” Disparei em direção à sala disposta á tirar a rede velha, agora ou nunca! Parei em frente á ela e de repente me veio um pensamento: “Daqui á alguns anos quando você ficar assim, toda capengua, velha, feia, é capaz de ele não te jogar fora assim tão fácil....” Deitei na rede velha: “Que ilusão a minha, se ele tiver que me trocar por outra mais nova, ele troca! O que tem uma rede á ver com isso?” Mudei de posição: “Mas ele não se desfaz assim tão fácil das coisas... Levantei e me olhei no espelho: “Pitangui na cara, silicone no busto, lipo na barriga...ai, meu Deus, vou ter que gastar uma nota daqui á pouco”...Virei-me de costas: “Não se esqueça do popô...e tudo isso, querida, não é garantia de nada, você bem sabe...Ai, meu Deus, penso tanta besteira, afinal não é só de aparências físicas que vive uma relação” querendo mesmo acreditar no que eu falava... Lembrei de Zezinho, meu analista: “Lina vê demônios....” Que comparação absurda! Por que pensei nisto agora? É verdade que ele não se desfaz assim fácil das coisas mas o que tem a rede a ver com o meu futuro silicone que se Deus quiser hei de colocar? Me diga? O pensamento não me saia da cabeça: “...Quando você ficar assim, toda capengua, velha, feia, é capaz de ele não te jogar fora assim tão fácil....” Roi as unhas, fiz um chá...fui tomar banho. O dia terminou, semanas passaram, meses...fato é que até hoje a rede velha continua lá reinando na sala, capenga, rasgada mas linda, maravilhosa, cheia de emoções, sentimentos, personalidade. Ahhhh, deixa ela lá!

Terça-feira, Setembro 05, 2006

Cap. 13_ Sogrinha e a roupa adequada

Tem coisas iguais no mundo que são diferentes. Explico: O mel africano tem um gosto muito diferente do mel alpino. A gentileza brasileira é diferente da gentileza austríaca. Em algumas partes da China, faz parte dos bons costumes arrotar depois da comida. Mas em muitas partes do mundo é falta de educação. O homem tem piriri, a mulher tem pororó.....e por aí vai. Mas tem uma coisa que é igual no mundo inteiro: Sogra! Eu amo de paixão a minha sogra, pra mim é Deus no céu e Sogrinha na Àustria. Mas sogra não deixa de ser o que ela é: Sabe mais do que a nora, tem sempre um conselho pra dar e ai,ai,ai de ti se falar mal do(a) filhote(a) dela. Sogrinha defende até o fim. Tanto quanto eu farei se, um dia por ventura, me tornar sogra (coitada da infeliz!).
Sogrinha se irrita com a minha extrema sensibilidade para baixas temperaturas. Verdade é que eu aprendo muito com Sogrinha. Por exemplo: Eu, carioca da clara, aprendi a tomar banho ao ar livre com uma temperatura do ar menor que 30 graus. Aqui vai o manual de instruções: Aquela trocação de biquinis e maiôs no meio do gramado que antes eu achava pura vaidade dos austríacos, ficou explicada: Com 40 graus qualquer pedaço de pano seca em minutos, com 20, já fica mais complicado. Então, para evitar a bateção de dentes, logo que sair da água, sempre tenha á mão uma enorme toalha, ela será útil para duas coisas: 1) para secar o corpo e 2) enrolada no corpo e com um pouco de know-how, servirá de cabine para trocar o traje de banho por um outro seco. Depois procura-se um lugar ao sol e na falta deste, dá uns pulinhos, umas corridinhas pra tirar o roxo dos lábios e a pele de ganso.
Para Sogrinha não existe frio, existe gente sentindo frio, o que é muito diferente. No verão, Sogrinha diz: “Frio? Não está frio! O teu biquini é que deve ser trocado, “logisch!” (é lógico!)” No outono, Sogrinha se irrita: “”Logisch” que está sentindo frio com esta capa de chuva! Você precisa de um Trenchcoat acolchoado e impermeável”. No inverno, fazendo menos 15 graus, Sogrinha ataca: “Pés congelados? “Logisch”, você não calçou a bota forrada de pele de carneiro...” Nevando Sogrinha revida: “A neve está derretendo e você com esta bota? “Logisch” que o pé tá molhado! Tem que ser uma bota impermeável, de nylon e forrada”....e por aí vai. Sogrinha tem razão, fazer o quê? Para suportar o frio, precisamos acreditar que somos mais fortes do que a natureza (e pra suportar sogra, precisamos acreditar que somos mais fortes do que elas!).
Um belo dia, Sogrinha resolveu ir ao Brasil. Eu já estava lá e fui buscá-la no aeroporto de taxi super-refrigerado. De manhã cedo, o sol já brilhava forte e prometia arrazar no céu azulzinho. Sogrinha chegou alegre e cheia de coisas para contar, a longa viagem do lado de um roncador e de uma dançarina profissional que lhe mostrou fotos do carnaval e explicou tudo sobre a “Estasson Primero de Mangueira”, Sogrinha fascinada, os olhos brilhando, cheia de energia pra conhecer este novo mundo. O motorista seguiu minhas instruções e parou o carro bem na saída da porta automática. Sogrinha estava tão empolgada que, sem perceber, já estava dentro do taxi fresquinho. Passamos pela linha amarela, favelas de um lado, engarrafamento do outro, Sogrinha achava tudo interessante e diferente, falou até em fazer uma dessas excursões à Rocinha pra conhecer de perto a vida lá. Pegamos a ponte e fomos direto para a praia de Icaraí. Pedí ao Motorista pra dar uma paradinha ali na esquina com a Otávio Carneiro. Saltamos e fomos andando em direção ao mar. Ás 10 da manhã o termômetro da esquina marcava 35 graus. Sogrinha ficou boquiaberta, no seu rosto, todos os sentimentos misturados: espanto, euforia, estranheza, felicidade, deslumbramento, talvez medo? Quando ela conseguiu balbuciar alguma coisa, estávamos já quase na margem da praia. De cara com aquela paisagem maravilhosa, o Pão de Açucar, o Corcovado, O museu, Sogrinha estava pasma: “Meu Deus, é lindo, lindo... mas....mas...” respirou fundo, “Que calor! Tá muito quente!” Abri um sorriso de quem já esperava estas palavras e fingindo-me surpresa: “Calor? Não está calor! Tá super fresquinho! Você que não está vestida adequadamente....” Sogrinha se irritou: “Como não? Estou só de Camiseta! Qual seria a roupa adequada para este calorão?” Fui ajudada por uma beldade que neste instante passava na nossa frente, apontei para a bunda enorme e seminua da mulher: “Biquini, é “logisch”!”

Quarta-feira, Agosto 30, 2006

Austriaco(a) ou nao austriaco(a)?

Teste aqui se você está preparado(a) para receber a cidadania austríaca!

1) Quantos banhos você toma por semana?
a) no mínimo 7 banhos
b) uns 5 banhos
c) pelo menos 3
d) 2 é mais do que o suficiente!
Se você respondeu (a): Você será convidado a se retirar do país, por quê isto mostra como você é incoerente com os costumes locais, gastar tanta água, estragar a sua própria pele, poluir os rios e perder tanto tempo da vida debaixo do chuveiro!
Se você respondeu (b): Tá melhorando, volte daqui há 2 anos e faça um novo requerimento
Se você respondeu (c): Pode passar para a segunda pergunta, boas chances, este tem futuro!
Se você respondeu (d): Que é isso, cara? Tá pensando que vai virar francês?

2) Com qual frequência você come carne de porco?
a) Ah, muito de vez em quando.......
b) Eu não como carne de porco. Sou vegetariano.
c) Todo dia
Se você respondeu (a): Tá frio.
Se você respondeu (b): O teu visto foi recusado sem direito á nova tentativa. Meu conselho: tente a Inglaterra, lá você vai passar bem.
Se você respondeu (c): Tá quente mas ainda não é tudo: A carne de porco, caso você seja aceito aqui, será parte inerente da tua vida, no café da manhã, no almoço, no jantar, nas festas, aos sábados, domingos e feriados

3) Quando você entra numa loja, a primeira coisa que você faz é:
a) Murmura um “Grüß Gott!” (Lembranças de Deus)
b) Exprime um leve sorriso e diz “Hallo!”
c) Vai direto até a vendedora e fala em alemão: “Ôô, minha filha você pode me atender, quer fazer o favor?”
Se você respondeu (a): Você é um exemplo de adaptação! Nunca foi à igreja mas sabe se portar num país católico. P.S: Mas não conte á ninguém que você toda sexta-feira vai na macumba, tá? Pode passar para a próxima pergunta.
Se você respondeu (b): Você quer virar austríaco ou alemão? Pegue um trenzinho pra Berlin e some daqui (ufa, menos um!)
Se você respondeu (c): Você está na Kärntnerstrasse, a rua mais chique de Viena mas se comporta como se estivesse nas Lojas Americanas da Rua do Ouvidor. Que fracasso! Fala alemão mas a cabeça continua morando num conjugado na Nossa Sr. de Copacabana. Sinto te dizer que o teu caso é muito dificil, quem sabe se você fizer um estágio durante um bom tempo em Treze Tílias antes de aparecer por aqui.

4) Na hora de pagar a conta, teu(tua) amigo(a) quer pagar, você:
a) Agradece e fica por isso mesmo.
b) Agradece e diz que da próxima vez você paga.
c) Fica indignado(a) e grita: “De jeito nenhum!” Arranca o dinheiro da mão do garçon, joga para o(a) seu(sua) amigo(a) de volta, abre a sua carteira e faz questão de pagar. A pessoa insiste, você berra com ele(a), segura as mãos dele(a) e nisso já derrubou a taça de vinho tinto no colo da pessoa e por aí vai...Depois de quase saírem á tapa, chegam a um acordo meio a meio.
Se você respondeu (a): Perfeito, fino, educado pra não dizer pão duro mas ninguém é perfeito. Resposta correta.
Se você respondeu (b): Tá querendo ser bonzinho(a)? Da próxima vez ele(a) com certeza vai querer jantar no Steiereck (Restaurante mais chique e mais caro de Viena) e aí você si f....
Se você respondeu (c): Você se esqueceu que não está no Rincão Gaúcho ou no Porcão! A estas horas o garçon já correu pra chamar a ambulância e te colocar num Hospício! Pontos perdidos e grana também.

5) Quando você cruza com um conhecido na rua, você:
a) Não diz nada, levanta só as sombrancelhas e sorri.
b) Fala “Servus” (=ao seu serviço) e continua seu caminho
c) Abre um sorriso e solta logo um: “Wie geht?” (=Tudo bem?)
d) Olha pro outro lado e finge que não o viu por que você te um monte de coisas pra fazer e não quer perder tempo com um “conhecido”.
Se você respondeu (a): Você não está passeando na Moreira César ou na Oscar Freire! Lá você encontra em cada passo um conhecido, dá pra entender. Mas aqui em Viena, você encontra um a cada vinte anos. Além do mais vão achar que isto com as sombrancelhas é cacuete e você rindo assim de graça pra um apenas conhecido só pode ser doido!
Se você respondeu (b): Já sei, você aprendeu alemão com um austríaco(a) no Brasil. Ele(a) vem de uma cidadezinha onde tem 5 habitantes: ele(a), o pai, a mãe, o avô e o cara do “Wurststand” (barraquinha onde vendem salsichas). Você precisa de um pouco mais de vivência cosmopolita mas até que não tá mal, pode passar pra próxima pergunta. Se você respondeu (c): Você mal conhece a pessoa e de cara faz a pergunta mais íntima do mundo para os austríacos? Você é o tipo que mora aqui faz algum tempo, estuda direitinho alemão mas só tem amigo brasileiro. Más companias, má nota!
Se você respondeu (d): Que vocação pra virar austríaco, você é um exemplo de assimilação! Sacou total o espírito da coisa. Ganhou 10 pontos

6) Quando você é apresentado à alguém, você:
a) Abre os braços, um enorme sorriso, se aproxima da pessoa, dá dois beijinhos abraçando-o(a) forte, acaricia as costas, olha fundo nos olhos e diz “Wie geht?” (=Tudo bem?)
b) Estende a mão e fala: “Hallo!”
c) Move a cabeça para baixo e fala: “Es freut mich” (=Muito prazer)
Se você respondeu (a): Você fez mesmo tudo isso? Agora olha pra cara da pessoa e vê qual foi a reação. Viu? Ele(a) está petrificado e vermelho(a) como um camarão. Na primeira oportunidade ele(a) vai sumir da tua frente. Ele(a) está morrendo de medo de você! E eu também! Game over!
Se você respondeu (b): Tá de bom tamanho.
Se você respondeu (c): E se o(a) cara for um arschloch? Você sente prazer em conhecer gente escrôta? Conselho: Melhor você conversar um pouco com o(a) cara e se despedir com um “Foi um prazer conhecê-lo”. Assim é mais seguro. Mas pode comprar tua passagem, você tá pegando o espírito da coisa.

7) O(a) teu(tua) parceiro(a) austríaco(a) te comunica que vai jantar com o(a) ex, a sua reação é:
a) Ótimo! Eu também vou junto por que estou morrendo de fome.
b) Que coincidência! Hoje tembém vou sair com meu(minha) ex!
c) Quebrar a casa toda e a cara dele! Que abuso, sair com aquele(a) vagabundo(a)!
Se você respondeu (a): Cuidado, eles vão achar que você está querendo um “Menage á troi” ou é isso mesmo que você quer? Então pegue um trenzinho pra Paris por que aqui na Áustria não tem essas sacanagens não, viu?
Se você respondeu (b): Bingo! Além de ganhar a cidadania austríaca, você amarra o(a) gato(a) para os próximos 20 anos, pois aqui vale o ditado: me pisa que eu gosto!
Se você respondeu (c): Querido(a), aqui na Áustria não existem favelas. Baixar um barraco destes mostra que o teu caso não tem cura, fique por aí mesmo, Rocinha, Vidigal, Santa Martha........

Segunda-feira, Agosto 28, 2006

Cap. 12_ Trocando em miudos


Hoje fiz fígado de galinha refogado com bastante tomate, cebola, alho, cenoura e pimentão, acompanhando polenta. Muita gente torce o nariz quando ouve isto: “Miúdos? Ai, que horror! Não como nem morta!” Aqui na Àustria como estas coisas que eu adoro (fígado, coração, moela e afins) geralmente é comida pra gato, eu me dou bem por quê é tudo baratinho e sempre tem pra comprar. Lá em casa éramos 4 crianças e minha mãe sabe fazer a melhor canja do mundo, quem já comeu sabe que eu tenho razão, era uma brigalhada de “quantos ele pegou de moela,” “eu não tenho fígado”, “cadê o coração que tava aqui no meu prato” e era um stress total pra dona Zilda. O Guido, muito esperto, um dia me disse para não comer o coração da galinha que estiver com um buraco no meio por que isto é a prova de que a galinha estava doente, e toda vez que eu cortava o coração, tava lá o furo, até o dia que eu peguei ele comendo escondido o coração que eu deixei de lado. O mundo é assim, dividido em dois times: Os que amam e os que odeiam miúdos, os que amam alho (99% dos brasileiros) e os que odeiam (99% dos austríacos!). Há muito tempo atrás, conhecí um cara e me apaixonei perdidamente por ele, eu chamei ele pra jantar e ele quando viu aquela montanha de alho picada na tábua, quis saber qual era o prato: “Spaguetti ao alio e olio, você gosta?” Silêncio....”Sabe o que é, Lina, eu o-de-i-o alho.” Quando ele acabou a frase, a paixão se evaporou no ar, assim como se nunca tivesse existido. Naquele momento percebí que qualquer tipo de vida em comum seria impossível por que eu a-do-ro alho! Maridão gosta de alho, nem tanto quanto eu, mas gosta. Quando eu peço pra ele comprar alho, ele mostra que me conhece a fundo: “Você quer quantos quilos, querida?”

Sábado, Agosto 26, 2006

Sabadão tudo de bão!

Fomos passear na floresta vienense. Tinha spielplatz, restaurante e streichelzoo (zoológico para acariciar os bichinhos)
p.s: As pinturas nas árvores são códigos de caminhos para não se perder na floresta. (Ainda bem que levei o lobão mau e os dois lobinhos, não precisei ficar procurando lobo.........

Quinta-feira, Agosto 24, 2006

Yoga para a "mothern" estrangeira

Pra quê academia? Empurrar balanço faz delinear os músculos do braço. Cooper? Aeróbica? Jogar futebol com as crianças faz o mesmo efeito. Stretching? Catar todos os brinquedos do chão se inclinando mas mantendo a coluna reta, também alonga tudo. Melhor ainda quando tem aquele quebra-cabeça de 1000 peças espalhado no chão, depois que você termina, quando se ergue, está 5 centímetros maior! E este aqui não é qualquer “mothern” que pode fazer uso: Yoga? Ao invés de sentar em lotus e dizer “ooooommmmmm, liberdade”, seja em casa, no parquinho, ou na fila do supermercado: na hora que tá aquela confusão, um batendo no outro, chorando ou pedindo aos berros algo impossível e vc está a ponto de perde a paciência e distribuir uns tapas, puxe os próprios cabelos pela raíz (massageia a mente) e ao mesmo tempo grite “aaaaaaaaiiiiiiiiiiiiiiii, PUT@ QUI O P@RIl!” Quem estiver em volta não vai entender nada mesmo do que vc xingou...Além disso ainda dá um toque moderno no penteado!
Este balanço é ótimo para work-out, pesadérrimo, faz o mesmo efeito que sit-ups e flexões. Foto: Outubro 2004

È luxo só?

Agora me diz uma coisa: aqui ninguém tem empregada por que é muito caro, ou por que acham que é muito caro e preferem gastar dinheiro em outras coisas? Tenho uma amiga que é publicitária e deve ganhar uns 2000 euros por mês, o marido uns 1500, aluguel 1000, jardim das crianças 500, comida 500, faxineira, luz, telefone mais 500, roupas, taxi, diversão mais uns 500, os 500 que sobra, isto tudo estou supondo o que eles gastam pq certeza de preço eu só tenho do aluguel, enfim, sobra acho que no mínimo 400 euros que é o preço de uma Au-pair aqui. Tudo bem, eles não tem o bendito quartinho de empregada, então tem que pagar mais por menos horas mas mesmo assim que seja duas vezes por semana, já iria ajudar a mulher que está acabadona! Tenho uma outra amiga, esta é brasileira, me contou que deixa de comprar roupas, deixa de viajar, deixa de fazer um monte de coisas para poder pagar a Au-pair. Eu encontrei a minha fórmula: tenho uma menina maravilhosa que vem 10 horas por semana, leva as crianças no parque, dá banho nelas, dá comida, bota na cama, lê histórinhas, arruma o geschirrspüller (lava-louças), eu fico com este tempo para mim e para o maridão. Quando conto isto para as amigas austríacas, ouço sempre o mesmo comentário: “Que luxo, hein?” Quando conto isto para as amigas brasileiras, ouço também sempre o mesmo comentário: “Coitada de você! Só 10 horas semanais! Como você consegue?”

Quarta-feira, Agosto 23, 2006

Cap. 11_ Dona Zilda e a pergunta fatal

Quando parei com a faculdade ouvia de dona Zilda todo dia de manhã (acompanhado de 3 cutucadinhas no ombro): “Escuta aqui, e agora? Quais são seus planos? Parou de estudar, não trabalha, você quer o quê da vida? blablabla....”! Era um sufoco, eu mal tinha aberto os olhos e ela já estava na minha frente: “Quais sao seus planos?” “Eu quero ser modelo! Quero fazer um curso de modelo e manequim na Socila.” Respondi com a certeza de todo adolescente que sabe muito bem o que quer da vida. Dona Zilda gostou da idéia, ela estava mesmo querendo dar um jeito na filha hiponga que nao sabia se maquiar, se pentear, só ficava arrastando panos pela Moreira César junto com outros cabeludos e sujos, sentando nos meios fios e cantando no violão não sei o que...Seria uma ótima oportunidade de fazer a filha apresentável para a sociedade niteroiense. Ela sabia que nestes cursinhos de modelo nao só ensinavam a desfilar e posar como também as regras de etiqueta, a vestir-se bem e etc. Seria perfeito. Fiz o curso e mais outro, aprendi tudinho conforme manda o figurino. Me mudei para São Paulo e dona Zilda via DDD: “Ouvi dizer que você está sem emprego, e agora? Quais são seus planos?” Às vezes mentia pra lhe tranquilizar: “Não se preocupe, mamãe, acabei de passar num Casting.” Fui para a Europa: Paris, Londres e dona Zilda via Embratel: “Você não tem visto, está ilegal, quais são seus planos?” Eu já tinha as respostas na manga: “Consegui um visto de estudante e um trabalho de garçonete, mamãe.”E os anos foram passando. Mudei-me para Viena: “Você não fala alemão, quais são seus planos?” “Estou desfilando num show-room, mamãe.” Passaram-se mais anos, arrumei uma nova profissão, casei, tive filhos e dona Zilda veio para Viena me visitar. Fui recebê-la no aeroporto com flores e um grande abraço: “Mamãe, que bom te ver, fez boa viagem? O tempo aqui está ótimo, a gente tem mais de um mês pra curtir a Europa mas, escuta aqui (lembrei a tempo de dar as 3 cutucadinhas no ombro): Quais são seus planos?”

a turma pós-fase-hippie, procurei fotos da época cabelão mas não achei, se alguém tiver, pode mandar. a gente não tinha máquinas fotográficas, só tinha mesmo vinho sangue de boi, violão e cigarros...

Segunda-feira, Agosto 21, 2006

Detalhes tão pequenos entre nós dois...

Eu não traduzo as palavras em alemão ao pé da letra. Procuro sempre ser fiel ao sentido da coisa. Por exemplo: Schatz significa tesouro e não querido como eu traduzí. Mas como também é um modo um tanto fora de moda de tratar o parceiro, achei que o correspondente seria este. Outro caso: aqui as pessoas chamam carinhosamente o outro de Mäuschen, o que eu categoricamente nego em fazer, pois imagina eu chamar aquele gatão de ratinho, não tem condições! (ele também nunca se atreveu a me chamar de ratinha!) e isto é uma introdução para o capítulo 10 á seguir:

Sábado, Agosto 19, 2006

Cap. 10_ Maça do amor


Sabadão, tempo bom, programa familiar: parque Prater. Nós também temos o nosso Central Park, tem 10 vezes mais velhos e 20 vezes menos gente frequentando mas...sobra por exemplo mais espaço...não tem assaltos...não tem ninguém pedindo esmola...não tem ninguém te incomodando...sendo sincera: não tem ninguém mesmo, só você e sua família, maravilha, né? Estamos passeando numa trilha deserta, é lógico, no meio do mato e eu distraída empurrando o Thuzinho no velocípede, Maridão me segura no braço: “Lina, cuidado com as Maçães do cavalo!” Olhei para o chão e tive um ataque de risos, ele não entendia nada. apontei para o monte fedorento e marrom: “Quer dizer que aqui na Áustria em vez de bosta, cocô, fezes, o cavalo faz maçães? Muito chique!” Ele continuou sem achar muita graça. Eu me expliquei melhor: “No Brasil, Schatz (querido), além de comer as maçães, a gente usa também a palavra para descrever as bochechas do rosto.” Ele sem se impressionar: “Ah, sei. Bom, cada um, cada um”. Continuamos o passeio, paramos num Jägerhaus (cabana de lanche) para comer, estava cheio, também pudera, o único local num raio de 4 kilometros. Thadi leu todo o menú em chinês, Thuthu derrubou um copo com água e distribuiu as pedrinhas do chão por todas as mesas como se fosse bala, colocou pimenta na minha Weissgespritz (vinho+soda), enfim o ritual normal de comer fora com crianças (as “mothern” me entendem!) Thuthu escorregou no chão de pedrinhas e ficou com a cara toda preta, motivo que nos levou a pedir a conta rapidamente e sair batido. Maridão foi buscar o carro e parou bem na frente do jardim do restaurante. A este ponto já tinhamos virado a atração principal do local que estava lotado de esportistas fazendo pausa, velhos saboreando Melanges (café+leite) e lendo jornais. Daí vem o alívio geral: a hora que a gente amarra os ferinhas em suas respectivas cadeirinhas no carro! Eu e Maridão, antes de entrar no carro, aproveitamos sempre pra respirar fundo e dar um beijo, tipo Sabadão geschafft! (tarefa cumprida). Desta vez, despercebida ao abraçá-lo, apertei seus trazeiros e falei: “Agora vou dar um beijo nas suas maçães e...” ele me interrompe, se desvencilha do abraço e olha pra mim indignado: "Mas querida, aqui? agora? tá todo mundo olhando...”

Cap. 9_ Thadeo e a camiseta super geil

Liguei pra Isadora, amiga austríaca, disse que tinha uma novidade pra contar, algo inédito por que desde que virei mãe nunca mais fiz...etc... Ela estava super curiosa pra saber o que era. Como o dia estava bonito, combinamos no Spielplatz (parquinho) do Stadtpark. Ela chegou com suas duas princesas, eu com meus dois príncipes. Notou logo a roupa nova do Thuzinho: “Camiseta super geil (legal)!". Thadeo entrou na frente dela: “É, foi tia Mirna que deu. Sabe, tia Mirna é irmã da Mama e mora em Berlim e Mama foi pra lá passar dois dias sozinha, Mama foi de avião, rapidinho, sabe? Por que tia Mirna fez aniversário, eu fiquei aqui com Papa e Marcela, Papa cozinhou pra gente, Marcela leu historinhas pra mim, Papa falou que a gente foi muito brav (comportados). Mama gostou muito da viagem e viu também tia Vania e tia Vanessa que são amigas da Mama desde que ela er pequeninhinha, Mama jantou com elas num restaurante italiano, Mama foi também num restaurante brasileiro com tia Mirna e tio Mike, passeou muito de carro com tia Mirna, eu ganhei de tia Mirna uma maleta com hidrocor e chocolate, Mama falou que tava calor lá e ela gostou muito das lojinhas da Schoeneberg, Mama me mostrou nas fotos: o carro de tia Mirna é um mini, teve foto também da Mama com um balão na cabeça...” Ele teria continuado o monólogo se a a filha mais velha não tivesse interrompido: “Vamos na gangorra, thadeo?” Saíram todos correndo, os maiores na frente, os menorzinhos tropeçando atrás. Ficamos sentadas observando as crianças. Isadora: “Você tinha uma coisa nova pra contar, né?” Eu: “É...só que deu um branco agora...”
eu e o ex-muro de berlin

Quinta-feira, Agosto 17, 2006

Cap. 8_ Dona Zilda e a resposta pronta

Quando eu era pequena, perguntava à ela: “Mãe, por que tem pouca manteiga no pão?” Dona Zilda, mulher sábia, respondia prontamente: “Estamos economizando dinheiro pra comprar um apartamento em Icaraí.” Mudamos para Icaraí, de frente para o campo de São Bento, deslumbrante vista. Passaram-se os anos. “Ô Mãe, por que você bota tao pouca pasta de dentes na escova?” E ela: “Estamos economizando pra comprar um apartamento em Cabo Frio”. Conseguimos comprar um pertinho do mar, uma delicia. Passaram-se os anos. “Mãe, a carne seca estava uma delícia mas faltou um pouco mais de molho, mais pimentão, tomate, cebola...”. Ela me interrompe: “Estamos economizando pra comprar um apartamento na serra”. achamos um bem perto da praca principal de Friburgo, tao fresquinho lá. Passaram-se mais anos e toda vez que nós, os filhos, recriminava-a pela sua mania de economizar, dona Zilda já tinha a resposta pronta: “ Foi assim que compramos 3 apartamentos, vocês estudaram em escola particular e foram tratados pelos melhores médicos e dentistas da cidade.” Passaram-se mais anos. Thadeo reclama comigo: “Mama, por que tem pouca manteiga no pão?” Eu já de resposta pronta: “Estamos economizando pra comprar um apartamento no Brasil” Seus olhos brilharam: “No Brasil? Uau! Mas...qual o tamanho do apê?” Eu sem resposta pronta: “Ah, nao sei ainda....” Ele me interrompe: “Então compra um “mais menor” e bota mais manteiga aqui, vai!”

Sexta-feira, Agosto 11, 2006

Cap. 7_ Feijoada em Pedaços


Semana passada depois de muitos vai e vens ficou decidido que o Maridão faria a janta que -este foi o problema- pra mim nao era janta, era lanche da noite por que se resumia em uma sobremesa: "Mas Lina, estas coisas ás vezes é o sobremesa e ás vezes é a prato principal" Explicou ele. "Como pode uma coisa virar outra sem modificar nada?". "Por que é muito grande, é muito Ausgiebig (consistente). "Bom, isto você tem razão, encarar um pratão destes depois de uma picanha por exemplo é meio difícil". Então vamos lá, fui até o quarto dos pintos, abri os bracos e gritei: "Crianças, hoje tem Kaiserschmarr de sobremesa!". "Ah, é? E pra jantar tem o quê?" Quis saber o mais velho. "O próprio Kaiserschmarr é a janta!". "E qual é a sobremesa então?" "Hã....eh........Pintinho, pergunta pro papai que ele te explica direitinho, tá?" Enquanto eles esperavam a janta -digo o lanche- ficar pronta vendo tv, fui pra cozinha aprender a fazer a deliciosa sobremesa, digo, o delicioso prato, que em português se chama panquecas em pedaços com compota de ameixa. A compota nao tem segredo, corta-se as ameixas ao meio, mistura açucar, deixa cozinhar sempre mexendo e tá pronto. A panqueca precisa de um certo know-how, e o Maridão sabe fazer bem essas coisas. A massa é a mesma de panqueca comum com uva-passas mas tem que colocar bastante na frigideira funda e grossa, fogo alto, quando dorar a parte de baixo, vira, daí corta-se em pedaços e vira de novo, até ficar tudo meio como um mexido mas em pedacos grandes. Serve-se com açucar de confeiteiro e a compota. É coisa dos Deuses! Na hora de servir, mais uma surpresa: Ele colocou um copo de leite pra cada um! Olhei-o com a maior cara de espanto: "Mas meu amor, leite pra mim e pra você também? Não seria melhor um vinhozinho branco ou até mesmo um chá?". "Não, Schatz (querida), de jeito nenhum, Kaiserschmarr, Apfelstrudel e cia. quando se servidado assim no janta só acompanha leite!" Senti que nem adiantava argumentar, Maridão é super careta pra essas coisas, as coisas sao feitas pra ser acompanhadas de certas coisas e nao de qualquer coisa, se você servir um Gulasch pra ele com arroz ou spaguetti é a calamidade, o mundo cai, Gulasch é com batatas que se serve ou com Semmel (pãozinho branco) ou como a gente diria: Cada coisa em seu lugar, cada macaco no seu galho. Na minha terra não tem essas complicações, galinha ensopada acompanha arroz com feijão, peixe á brasileira acompanha arroz com feijão, bife acebolado acompanha arroz com feijão... Mas estamos a 10 mil quilômetros desta realidade... Então tá bom, a panqueca em pedaços se toma com leite e pronto. Não vou comprar esta briga por que o mundo dele é assim, pensei comigo mesma, o meu é diferente e respeitando um ao outro, é assim que a gente se ama e muito e há mais de dez anos, e por ai vai, o amor é lindo e a panqueca tá uma delícia, e o leite até que cai bem, tá fresquinho....terminei o jantar(?) satisfeita. Agradecida, dei-lhe um grande beijo.

Ontem preparei pra variar uma feijoada simples, feijãozinho preto, umas linguiçinhas, arroz, farofa, cortei até uma laranja, fritei umas bananas na manteiga, botei a mesa linda, servi as bebidas nos copos e chamei a galera: "Gatinhos e gatões, a comida tá na mesa!" Vieram correndo, Thulinho atrás tropeçando e trocando as pernas, uma gracinha. Sentamos cada um nos seus respectivos lugares e o bofe todo feliz: "Tem um xero muita bom!" Pegou seu copo e deu um gole enorme, devia estar com muita sede. De repente, cuspiu, se engasgou, ficou todo vermelho, limpou a boca com guardanapo e todo assustado, olhou pra mim, mostrou o copo e ainda engasgando:"O que qui cof, cof qui é isso? cof,cof" E eu com um leve sorriso de vingança nos lábios: "Cachaça, é claro! Com feijoada se toma cachaça, Schatz!"

Quarta-feira, Agosto 09, 2006

Cap. 6_ Marcela e o ticket em aberto


Ela tinha um ticket em aberto de volta para o Brasil e me pediu pra ajudá-la por que não estava entendendo direito como funcionava o esquema. Liguei para a agência de viagens e traduzí para ela o que me foi explicado: se ela quisesse voltar nos próximos dias, teria que dar uma resposta o mais tardar amanhã cedo por que havia poucas vagas e etc. Ok. Serví o jantar e mais uma novidade pra Marcela: Gulasch. "gu o quê?". "Eu com meu sotaque de carioca: "Guuulaisxxxx, pode puxar no x, tipo xxxiiiiii, sujou, sabe? Goulaixxx! É ensopadinho de carne com paprika, este pó vermelho aqui que parece urucum, gostou?" "Uma délicia, oh xenti!". Enquanto saboreavamos o gulasch com cerveja e as criancas se pintavam toda de vermelho com o molho, ela quis saber como é esta história de elevador com chave. "É assim: O elevador foi construido há alguns anos e só pode usar quem pagou pela construção e paga pela manutenção e só quem pagou recebe a chave que faz o troço funcionar." "Ué, e quando vc recebe visitas?" "Eu abro a porta através do botao eletrônico, vou para o corredor, escuto os passos da pessoa ou quando nao escuto, dou uma gritadinha: Fulano, entra no elevador que eu te busco!" "Ai, gente qui complicação! E se a pessoa chegar assim tipo, oi, tava por aqui de bobeira e resolví dar um alô..." "Marcela querida! Aqui ninguém fica de bobeira principalmente quando lá fora faz menos 15 graus! Se alguém quer te visitar, a pessoa liga, marca dia e hora...." "Oh xenti, parece até médico!".Marcela comia e pensava e de repente mais dúvidas: "Ué mas quem é que não pagou o elevador? No brasil todo mundo tem que pagar, né? Vem no condomínio igual pra todo mundo". "È, mas por exemplo: quem mora no térreo nao paga....". "Ué xenti, mas quando a dona do térreo quer te visitar?". "Eu nao sei nem o nome dela e há 6 anos que falamos Grüss Gott, Grüss Gott e nada mais." "Gró Gru quê?" "Grüss Gott, lembranças de Deus". "oh xenti, em Salvador a gente fala axé! minha rainha!" Me imaginei cumprimentando a gordinha mal humorada do térreo com um “Meine Königin!” Marcela pensativa, limpa a boca de Thulio, eu podia imaginar o que se passava na cabeça dela, para ela era tão natural tratar todo mundo de meu rei, minha rainha, fazer amizade com a vizinha, o carteiro, a vendedora de flores...Marcela pede mais batatas, mastiga, pensa, os olhos vivos querendo engolir o mundo, ela continuava sem entender: "Ué, mas nunca faltou um acucar, dona Lina, nunca precisou de um café? Nunca passou mal, precisou bater no vizinho...."......eu não sabia o que respondê-la, ficamos em silêncio......Sentí que alguma coisa tocou muito ela, a cortina que separava-a da realidade aqui na Áustria estava se abrindo e ela parecia espantada com esta nova descoberta. Levou as crianças para a cama e voltou, continuo calada, quando eu já estava indo me retirar, ela :" Dona Lina, é que eu......." "que foi, Marcela? fala! tá tudo bem?" " Tá tudo bem mas sabe o que é.......que horas abre a agência de viagens amanhã?"

Terça-feira, Agosto 08, 2006

cap. 5_ marcela 1


quando abrí a porta e dei de cara com ela meio sem graca, meio gordinha, percebií tudo: sou eu há uns 20 anos atrás! ela já estava em viena e foi recomendada por uma amiga que a trouxe de salvador, chegou meia hora atrasada e a única desculpa que deu foi: "poxa, o élevador tá quebrado! tive que vir de escada......" (detalhe: eu moro no 3. andar!) coloquei chá na mesa, queijos, pao e conversamos sobre ela, sobre o que veio fazer em viena ("ué, genti, morar, viver, ué, sei lá!), sobre a cidade ("é tão linda!") e os meus filhos (ó genti, cóisa linda! meu rei") encheu a casa com aquele astral descompromissado baiano, aquela cantoria no falar. eu toda preocupada em explicar os deveres e obrigacoes, o que é aonde, o que pode e o que nao pode e etc. ela sempre sorrindo, leve, solta. me lembrou da verinha paulista: "meu, eu adoro baiano, sabe pq? pq baiano não tem paranóia!" é, ela era tão simples, tão pura.......mas o outro lado da moeda é que apesar de estar há algum tempo em viena, parecia que ainda não tinha chegado! tirando um ou outro "ménino" que conheceu, convivia todo o tempo com baianos. só falava danke(obrigado), bitte(por favor) e wie geht(como estás). continuamos nossa conversa aproveitando que as criancas foram dormir cedo. ela me disse que acha "um absurdo a pouca higiene das pessoas aqui, não tomam banho todo dia, que horror, eu mesma tomo 2 por dia" eu escutava calada. "conheci um gatinho, a gente se encontrou várias vezes até que um dia ele me levou pra casa dele e bejinho pra lá e beijinho pra cá, pega dalí pega de cá, afastei ele um pouco e falei: tudo bem, eu vou pra cama com vc mas quem vai tomar banho primeiro agora vc ou eu?". rí muito e ela continuou:"pq vc tá rindo? em salvador é assim, óh genti!....foi legal mas ele nunca mais me procurou........" notei que ela cheirava todos os queijos e nao provou nenhum. passei uma boa porcao de roqueffort no pão e dei pra ela: "abra a boca, coma!". " mas eu não gost.......". "coma!". "hum, hum hum..........gostoso, muito gostoso, esse é um dos mais fedorentos mas gostei, muito bom". "pois é, tá vendo este verdinho aqui no queijo? é mofo, o queijo é mofado, ele fica num porão por meses mofando, aliás amadurecendo." "mas...mas......o pedaço que vc me deu não tinha mofo não né?". "claro que tinha! " por dentro eu me divertia, a cara dela era de espanto, como pode ter gostado daquele fedor? mas ela gostou e gostou tanto que a partir de então os queijos quanto mais fedorentos mais rápido desapareciam na boca de marcela. e eu pensava, chegou crua aqui em casa mas sairá no ponto!

Segunda-feira, Agosto 07, 2006

cap. 4_ garcons de cabelo em pé


sábado fomos á um jantar de uma prima do meu sogro. lá fiquei feliz em perceber que arrumei uma familia numerosa aqui na áustria. meu marido tem 3 irmaes e 5 sobrinhos além do pai e a mae vivos, juntando com os nossos dois gatinhos, imagina a loucura que é quando tem páscoa, natal, etc. ao contrario da tal prima-avó que teve só uma filha e da filha que só teve um filho. o garoto já adolescente pra nao ficar chato, levou um amigo de escola. coitado, além de não ter irmão, não tem tio, nem primo e também não terá sobrinho....nós da familia astratila dominamos o ambiente e é lógico que as minhas duas ferinhas deram um show de vitalidade, correram pra lá e pra cá deixando os garcons de cabelo em pé enquanto se equilibravam com bandejas enormes de spareribs (costelas de porco) e se desviavam dos passos rápidos de thadeo. o pessoal da "mono"-família ficaram, pra falar de uma forma civilizada, impressionados com a "energia" dos dois gatinhos. se fossem brasileiros, iriam com certeza dizer: são bem espoletas, levadinhos, né? a mãe queria saber á que horas eles dormiam e quando acordavam. minha resposta: "se a gente ficar aqui até a 1 da manhã é capaz de eles continuarem acordados, brincando, correndo..." ela ficou pasma e eu também ficaria se tivesse um filho que desde o momento que chegou ás 17 até ás 21 horas não levantou do lugar nem pra ir ao banheiro! tudo bem que ele já tem uns 17 anos, pra mim não é saudável.aliás o ritual mesa é um capitulo á parte.
foi duro eu me adaptar a esses rituais de jantares em que todo mundo fica horas e horas sentado, comendo (entradas e mais entradas), fumando e conversando. o cosme me contou que logo depois da sua chegada em paris depois de alguns desses jantares ele se sentiu tão colado na cadeira que nao conseguiu mais levantar! só a mente funciona e a boca que nao para de trabalhar, pra falar, pra fumar, pra comer, uam loucura! agora procuro sempre um lugar na beirada da mesa que seja fácil de levantar e até gosto quando tenho que pra correr atrás do thuli. meus tios tem mais de 80 anos, sao magros, esbeltos e com a coluna ereta. nunca na minha vida inteira presenciei eles sentarem por mais de 15 minutos. até pra comer, era ás vezes em pé quando a casa estava cheia, uma mao segurando um prato, a outra gesticulando e a boca comendo e falando ao mesmo tempo......bom, thadi tem a quem puxar....pois viva a vitalidade das criancas!

Sábado, Agosto 05, 2006

cap. 3_ por do sol em itaqua

tomara que amanha esquente um pouquinho mais pra eu poder ir ao donauinsel (ilha do danúbio) no churrasco da mariana.
semana passada foi ótimo. fui sozinha, cheguei mais tarde pq tinha que deixar os meninos (os 3!) bem cuidados em casa. e valeu poder tomar aquela cervejinha á beira do rio e jogar conversa fora com os landleute (conterraneos). me fez lembrar do cosme que acabou de virar papai, me escreveu um e-mail: "o garoto tá super lindao , caga mija peida arrota baba chora come dorme , mas quando abre um sorriso é que vejo que vale a pena todo o esforço! e finalizou a mensagem com: "será que ainda existe aquele fim de tarde em Itaqua...aquela tranquilidade, fumar aquele cigarrinho em paz, olhando o mar... !?
escreví de volta: porrrrr, eu te entendo tanto, tanto.....outro dia tive que fazer minhas necessidades com os dois no colo! mas é isso mesmo, quando eles abrem um sorriso o sol brilha aqui dentro! e aquela paz, aquele por do sol vai ter que esperar uns anos......enquanto isso me contento com os churrascos do donauinsel!
porrrrrrr e neste momento que queria escrever mil coisas vem o thadi pra me perguntar: "mama, eu posso finalmente brincar no computador? vc já brincou muito." bom, depois continuo, sabe aquela calma, aquela tranquilidade? vai ter que esperar. MMMMAAAAMMMAAAAe, sai daí que eu quero brincar!

p.s: este por do sol é do porto da barra em salvador mas também serviria pra trazer aquela paz.......

Sexta-feira, Agosto 04, 2006

cap. 2_ bilinguidades de criança

hoje choveu e fez frio. foi o dia de respirar fundo, olhar para os lados, ver o que se tem pra fazer antes do frio chegar pq ele é implacável, chega de mansinho, devagarinho e a gente tem que estar com tudo em cima, saude, grana, tudo o que deve ser arrumado e consertado em casa, e principalmente suficiente quantidade de sol na alma pra aguentar até a próxima primavera. lembro a história do grilo que cantou todo o verao e no inverno ficou no perrengue.......
observei thadeo contando um filme que viu para o pai, explicou todas as cenas em alemao, é uam graca quando conversa, os olhos brilham e fala sem parar, anda de um lado para o outro, gesticula, um autentico representante da familia prathos! e no meio da encenacao ele explica que o personagem tirou uma meleca, botou a meleca lá e dai a meleca caiu e dai......foi muito normal o que ele falou, faz parte da história o que ele contou, mas a palavra meleca foi a unica palavra em portugues que ele colocou no meio da explicacao! fiquei com uma pulga atrás da orelha! será que com só 4 anos já tem tanto jogo de cintura pra filtrrar as coisas e organizar as línguas na cabeca? juntando isto ao fato de que hoje pela manha, quando estavamos no metro, cheio de gente, ele grita em plenos pulmoes: "mama, ich habe ein pum gemacht!" morri de rir! fui a única que riu (que alívio!) mas morri de curiosidade pra saber que, se um dia estivermos num metro no brasil ele será também esperto pra dizer um: "mama, eu fiz um schass!"

Quinta-feira, Agosto 03, 2006

cap. 1_ a inveja de gisele bündchen

ontem fomos no parqunho da karlsplatz, a igreja, o lago (artificial na frente), o sol no céu azul brilhando.....estava bonito, como gosto desta cidade! e pra completar ainda colocaram um kiosk bem na entrada do spielplatz (área com brinquedos, balancos, etc) com dj, bebidas, espreguicadeiras. o próprio quiosque deve ter sido projetado por um desses arquitetos da jovem guarda vienense. pode-se tomar uma campari-orange enquanto se observa os turistas, ler um jornal de graca.......claro que nada disso eu fiz pois sozinha com minhas duas "ferinhas", passei a tarde correndo, jogando bola, levantando o thulio pra escorregar, empurrando balanco, se sacudindo no remador, daí depois fica neguinho admirado com a minha magreza! meu segredo: empurrar carrinho de bebe e spielplatz todo dia!

de vez em quando dava uma espiadinha nos modernos, bacanas que paravam lá pra curtir a música e tomar um drink, de vez em quando eu pensava um :"ah, se eu pudesse...." mas só de vez em quando, pq estava na verdade me divertindo com as criancas. e lembrei entre uma e outra balancada, do programa que ví sobre a gisele bündchen na tv alemã, ela apareceu maravilhosa com sempre em várias passarelas, dando autógrafos, sendo fotografada, linda, poderosa e daí aparece a cena dela no meio de vários fotógrafos e repórteres falando: "o que eu realmente quero é mais tarde ter uma casa e construir família, só nao sei quando nem com quem...". caraca, eu passei 10 anos da minha vida perseguindo exatamente o que ela tem: um enorme sucesso como modelo. agora eu aqui com os meus bens vividos 40 anos, depois de já ter a muito tempo abandonado esta ideia louca de fama, com meus dois filhos fofos e marido maravilhoso, agora posso dizer que me sinto feliz e muito! apesar das minhas reclamacoes que sao, digamos assim, parte do meu charme para alguns e de minha chatisse para outros, sou muito feliz. sendo assim, desejo á vc, gisele bündchen, que um dia tenha a sorte de encontrar um maridao como o meu!
hi, meu bebezão acordou!

minhas duas "ferinhas"

eu com 18 anos

eu comemorando os 40!

p.s: a foto do maridao nao mostro, sabe lá gisele lê isto........,
hehehe